Para obter o fio seda é preciso ferver os casulos, cada um deles tem à volta de 600 a 900 metros de filamento e são precisos cinco a oito filamentos para fazer um fio de seda. Por volta de 1400 antes de Cristo a seda desenvolveu-se na China como um indústria, tornando-se um dos principais elementos da sua economia.
Os chineses conseguiram manter este segredo bem guardado por mais de dois mil anos. Qualquer pessoa que fosse apanhada a traficar ovos, bichos da seda, casulos ou sementes de amoreira era condenado à morte. Os funcionários chineses eram pagos em seda, era também usada como moeda de troca internamente e externamente. Os chineses exportaram a seda para Ocidente através da famosa Rota da Seda, era assim que chegava ao Império Romano onde era paga a peso de ouro.
A seda chegou a Portugal pouco depois. Segundo ao Abade de Baçal a seda chegou a Trás-os-Montes no século XV:
Mas, foi no século XVIII, no reinado de D.José I, que o marquês de Pombal desenvolveu e protegeu as indústrias portuguesas provocando um surto manufactureiro da seda em Trás-os-Montes.
"As suas manufacturas tem muita extracção para todo o reino e foram mesmo para a America, para o que concorre muito a liberdade de extracção, sem pagar direitos, concedida ás manufacturas do reino por D. José I, pelos decretos de 2 de abril de 1757 e 24 de outubro do mesmo anno. Sustenta o dito negociante João Antonio Lopes Fernandes cento e oito teares, sendo o maior numero de tafetás em que consome todos os annos oito mil arrateis de seda, a qual é de Italia quasi toda por ser a da provincia muito mal fiada. A provincia de Traz-os-Montes é tão abundante de seda que colhe regularmente vinte mil arrateis della fina e outro tanto de seda macha e redonda." (Abade de Baçal, tomo II, p.455) (1 arrátel, também chamado de libra, era igual a: 0,459 kg)
Em finais do século XVIII o crescimento da produção de seda em Trás-os-Montes era significativa, atingindo o seu apogeu na última década do fim deste século:
"Entre 1790 e 1793-1794 a indústria das sedas desta vila (Chacim) conhece progressos espectaculares. Assim, a produção de seda torcida triplica, passando a 5 500 arráteis anuais. O número de teares aumenta de 37 para 57. A produção de tecidos quadruplica, saltando de 19 640 côvados para 80 525 côvados. E o número de pessoas ocupada nesta indústria quase triplica –aumenta de 140 para 379 –, isto é, mais de 60% da população total da vila (637 almas), assim distribuídos:
- 100 homens e 120 mulheres nas fábricas, incluindo as dobadeiras;
- 35 homens e 130 mulheres nos tornos de torcedura;
- 6 homens e 8 mulheres na escola de fiação.
Era em Bragança que estava concentrada a maior produção. Contudo estavam aqui definidos os três grandes centros da produção de seda transmontana: Bragança, Chacim e Freixo de Espada à Cinta.
"Mas era em Bragança, então a maior e mais rica cidade transmontana, desde sempre o mais importante centro desta indústria no Portugal do interior, que se registava uma animação invejável, de tal modo que a vida económica da cidade assentava fundamentalmente em tal actividade. As suas fábricas, com 232 teares e 9 tornos, em 1794, empregavam 915 pessoas – 407 fabricantes de seda e 508 mulheres –, além de 11 torcedores de seda, e 24 tintureiros, isto é, mais de 18% da sua população total. Nos seus tornos, eram preparados 4 500 arráteis de seda ao ano. E as suas cinco tinturarias, com excepção de uma modesta tinturaria em Chacim, as únicas existentes em toda a província de Trás-os-Montes, encontravam-se reputadas a nível nacional."Fernando de Sousa, op.cit.p.72
O início do século XIX marcou algum declínio e o anunciar das dificuldades que viriam ao longo das primeira décadas deste século. Cultivava-se grande número de amoreiras, sobretudo pretas, um pouco por todo o distrito de Bragança. Mesmo nos últimos anos do século XVIII o bicho da seda foi dizimado por doenças o que obrigou à importação de semente de Piemonte, Itália. Este facto, aliado a problemas nas técnicas de fabrico, ao monopólio dos Arnaults, os compradores combinarem entre si o preço dos casulos que compravam aos agricultores nas feiras, a de Mirandela era a mais importante, o contrabando vindo de Espanha, os impostos (1801) e o gosto pelo uso de sedas estrangeiras, fez com que se tornasse mais difícil enfrentar uma cada vez maior concorrência estrangeira em qualidade e preço.
Se o século XVIII representou o apogeu da produção de sedas em Trás-os-Montes o século XIX marca o seu lento declínio, ainda que, nos primeiros anos deste século se tenha mantido, com dificuldades, a produção. As invasões francesas iniciadas em 1807 nada ajudaram ao seu desenvolvimento. Com a abertura dos portos brasileiros aos produtos ingleses perdeu-se também um dos destinos mais importantes da seda transmontana. Devido ao abandono foram arrancadas muitas amoreiras e voltou-se outra vez a métodos antigos de produção o que não beneficiou a qualidade.

"A escassez de capitais, quer em Chacim, quer em Bragança, onde – apesar de malograda tentativa efectuada pela Real Companhia das Sedas –, nunca surgiu um projecto endógeno, aglutinador, que congregasse efectivamente os Arnauds e os negociantes e fabricantes de sedas da região, revelou-se dramática para a indústria das sedas em Trás-os-Montes. Para continuar, as sedas trasmontanas necessitavam de mercados garantidos e de aperfeiçoamentos contínuos. Só que as invasões francesas e a extinção do regime de monopólio do mercado brasileiro destruíram aqueles e impediram estes. Após 1813-1814, os esforços dos Arnauds para arrumarem e disciplinarem a casa trasmontana quanto à criação do bicho da seda, produção de casulo e fiação, revelam-se infrutíferos, os fabricantes de Bragança debatem-se com dificuldades crescentes quanto à venda dos seus tecidos, e o Estado mostra-se cada vez mais renitente em intervir, abandonando a indústria das sedas daquela região à sua sorte." Fernando de Sousa, op.cit.p.97
Em 1830 só já havia em Bragança sessenta teares e em Chacim catorze. Em 1844 os ditos sessenta teares tiveram de fechar devido à concorrência estrangeira. Os lavradores começaram eles próprios a fazer a fiação o que diminuiu a qualidade da seda. Houve ainda vários pedidos para se concentrar o filatório da seda num único local mas tal nunca viria a acontecer. Os compradores de seda viraram-se para o estrangeiro, em especial para Itália. Começaram também a surgir novas fábrica em Lisboa, no Porto e noutras cidades do país com novas técnicas de fiação enquanto em Trás-os-Montes se continuava com os velhos teares. As velhas amoreiras pretas estavam a ser substituídas pelas mais macias amoreiras brancas. Também nas amoreiras a região não acompanhou a modernização e continuou com as amoreiras pretas.

A produção de casulo em Trás-os-Montes estava em franco declínio a partir de meados do século XIX. As moléstias continuaram e a produção de bichos da seda pelos lavradores não era feita nas melhores condições. Contudo, continuou a haver algumas tentativas de fomento mas que não perduraram no tempo.
"Por decreto de 29 de Outubro de 1891 foi transformada a Estação Químico-agrícola da 2.ª Região Agronómica de Mirandela, à frente da qual tinha estado João Inácio de Menezes Pimentel, em Estação de Sericicultura, tendo por objectivo: habilitar pessoal em todos os serviços atinentes à criação do sirgo; produzir semente seleccionada para ser vendida aos sericicultores, aos quais prestaria as informações de que necessitassem; ensaiar e aperfeiçoar os processos sericícolas e promover a replantação das amoreiras, tendo para isso viveiros para as vender a quem as quisesse." Abade de Baçal, op.cit.p.467.
Contudo, este esforço foi depois desviado ou abandonado. A Estação de Sericicultura de Mirandela foi transformada em Estação Transmontana de Fomento Agrícola em 1898 para atender à replantação de vinhedos destruídos pela filoxera.
Os finais do século XIX trouxeram o aniquilamento quase total da seda no distrito de Bragança. O Abade de Baçal chamou-lhe um "baque medonho" o que aumentou a emigração, ano após ano, em especial para o Brasil, atingindo a cifra de sete mil indivíduos em todo o distrito em 1912, fora aqueles que embarcaram clandestinamente.
A produção de vinho conseguiu atenuar, em parte, o abandono da seda. A indústria da seda sobreviveu ao século XIX nalguns concelhos do Sul do distrito de Bragança como Freixo de Espada à Cinta mas com uma produção muito limitada, nos concelhos do Norte desapareceu completamente.
Todo o ciclo da seda sobreviveu até hoje em Freixo de Espada à Cinta mas do ponto de vista artesanal. Do ponto de vista industrial desapareceu algures durante o século XX.
Pereiros participou neste último suspiro da indústria da seda transmontana até aos anos 40 do século XX. A quem seriam vendidos os casulos de sede produzidos por algumas famílias de Pereiros? E as amoreiras com grandes troncos que ainda subsistem? Quando foram plantadas? No apogeu da produção de seda no século XVIII?