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O objectivo deste blog é duplo, dar a conhecer Pereiros de Ansiães, a sua história, a sua paisagem, o seu património e as suas tradições; é também uma forma de fazer aquilo que eu gosto, de partilhar emoções e memórias.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

A seda em Trás-os-Montes

A seda é de origem chinesa. Contudo, situar o seu aparecimento no tempo é um mistério. Por isso é que se recorre à lenda: a imperatriz Si Ling Chi foi a primeira a descobrir a seda há mais de cinco mil anos. A história diz que, enquanto sentada debaixo de uma amoreira, no jardim do palácio, a imperatriz foi tomando chá. De repente, dos galhos da amoreira, caiu um casulo na sua chávena de chá quente e ela reparou que um filamento branco, brilhante e muito resistente se começou a desenrolar...
Para obter o fio seda é preciso ferver os casulos, cada um del
es tem à volta de 600 a 900 metros de filamento e são precisos cinco a oito filamentos para fazer um fio de seda. Por volta de 1400 antes de Cristo a seda desenvolveu-se na China como um indústria, tornando-se um dos principais elementos da sua economia.

Cesto de casulos de seda produzidos em Freixo de Espada à Cinta

Os chineses conseguiram manter este segredo bem guardado por mais de dois mil anos. Qualquer pessoa que fosse apanhada a traficar ovos, bichos da seda, casulos ou sementes de amoreira era condenado à morte. Os funcionários chineses eram pagos em seda, era também usada como moeda de troca internamente e externamente. Os chineses exportaram a seda para Ocidente através da famosa Rota da Seda, era assim que chegava ao Império Romano onde era paga a peso de ouro.
Por volta de 200 antes de Cristo muitos chineses emigraram para a Coreia e levaram consigo o segredo da seda. Assim, o segredo da seda viajou lentamente pela Ásia. Quinhentos anos depois estava na Índia. Só no século XIII, 1200 anos depois do nascimento de Cristo é que a seda chegou a Itália, através da contratação de tecelões de seda da Pérsia.
A seda chegou a Portugal pouco depois. Segundo ao Abade de Baçal a seda chegou a Trás-os-Montes no século XV:

"Em 1475 o duque de Guimarães representou a el-rei que tendo feito contrato com Rui Gonçalves de Portilho e Gabriel Pinello, genovês, para lavramento da seda em Bragança, e não sendo a da terra suficiente, porque era indispensável mais fina, lhe pedia, portanto, que isentasse de direito a que importasse de Almeria e de outras partes de fora do reino, para aquele serviço. D. Afonso V concedeu-lhe a isenção com certas cláusulas. (...) Em 1531 pedia-se ás côrtes que as sedas que se creassem e obrassem em velludos, tafetás, retrozes e outras obras, assim na cidade (de Bragança) como na terra, podessem ir livremente pelo reino vender-se, sem pagarem nenhuns direitos de alfandega, levando certidão do escrivão da Camara."(Abade de Baçal, Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança, tomo II, p. 452)

Produção artesanal de seda na actualidade - Freixo de Espada à Cinta

Mas, foi no século XVIII, no reinado de D.José I, que o marquês de Pombal desenvolveu e protegeu as indústrias portuguesas provocando um surto manufactureiro da seda em Trás-os-Montes.

"As suas manufacturas tem muita extracção para todo o reino e foram mesmo para a America, para o que concorre muito a liberdade de extracção, sem paga
r direitos, concedida ás manufacturas do reino por D. José I, pelos decretos de 2 de abril de 1757 e 24 de outubro do mesmo anno. Sustenta o dito negociante João Antonio Lopes Fernandes cento e oito teares, sendo o maior numero de tafetás em que consome todos os annos oito mil arrateis de seda, a qual é de Italia quasi toda por ser a da provincia muito mal fiada. A provincia de Traz-os-Montes é tão abundante de seda que colhe regularmente vinte mil arrateis della fina e outro tanto de seda macha e redonda." (Abade de Baçal, tomo II, p.455) (1 arrátel, também chamado de libra, era igual a: 0,459 kg)

Além de Bragança desenvolveram-se outros centros produtores de seda. Foi aqui, durante o século XVIII que se iriam definir os principais pólos de produção. A vinda de famílias estrangeiras para a nossa região foi decisiva no desenvolvimento desta indústria:

Real Filatório de Chacim criado em 1788 por decreto de D. Maria I

"A família italiana dos Arnauds, perita na indústria das sedas, vinda para Portugal em 1786-1788, acaba por se instalar em Trás-os-Montes, na localidade de Chacim, onde, sob a sua orientação, é construída uma Fábrica de Fiação e Tecelagem das Sedas, que se encontra concluída em 1790. A partir de então, os Arnauds promovem a criação de escolas de fiação pelo método piemontês nalgumas localidades de Trás-os-Montes e passam a fornecer seda torcida pelo referido método, de qualidade, às fábricas de Bragança. E esta cidade, por seu lado, irá atravessar uma das épocas de maior prosperidade da sua história. (...) Em 1790-1791, Freixo de Espada à Cinta, em obediência a uma longa tradição vinda seguramente do século XVI, se não mais cedo, continua a fabricar os panos de peneiras, tafetás, fumos e gravatas, trabalho este executado por mulheres, 38, que, em igual número de teares, pertencentes a 4 empresários, registam uma produção global de 975 peças de panos de peneiras, 38 gravatas e 6 280 côvados de tafetás e fumos" (Fernando de Sousa, A Indústria das Sedas em Trás-os-Montes (1790-1820), p. 66)(1 côvado era igual a 52,4cm)

Em finais do século XVIII o crescimento da produç
ão de seda em Trás-os-Montes era significativa, atingindo o seu apogeu na última década do fim deste século:

Real Fábrica da Seda - Chacim

"Entre 1790 e 1793-1794 a indústria das sedas desta vila (Chacim) conhece progressos espectaculares. Assim, a produção de seda torcida triplica, passando a 5 500 arráteis anuais. O número de teares aumenta de 37 para 57. A produção de tecidos quadruplica, saltando de 19 640 côvados para 80 525 côvados. E o número de pessoas ocupada nesta indústria quase triplica –aumenta de 140 para 379 –, isto é, mais de 60% da população total da vila (637 almas), assim distribuídos:
  • 100 homens e 120 mulheres nas fábricas, incluindo as dobadeiras;
  • 35 homens e 130 mulheres nos tornos de torcedura;
  • 6 homens e 8 mulheres na escola de fiação.
Os seus cetins, tafetás, veludos, gorgorões tinham “excelente extracção” para todo o Reino e para o Brasil." Fernando de Sousa, op.cit. p.70

Era em Bragança que estava concentrada a maior produção. Contudo estavam aqui definidos os três grandes centros da produção de seda transmontana: Bragança, Chacim e Freixo de Espada à Cinta.

Dubadoura artesanal de seda - Freixo de Espada à Cinta

"Mas era em Bragança, então a maior e mais rica cidade transmontana, desde sempre o mais importante centro desta indústria no Portugal do interior, que se registava uma animação invejável, de tal modo que a vida económica da cidade assentava fundamentalmente em tal actividade. As suas fábricas, com 232 teares e 9 tornos, em 1794, empregavam 915 pessoas – 407 fabricantes de seda e 508 mulheres –, além de 11 torcedores de seda, e 24 tintureiros, isto é, mais de 18% da sua população total. Nos seus tornos, eram preparados 4 500 arráteis de seda ao ano. E as suas cinco tinturarias, com excepção de uma modesta tinturaria em Chacim, as únicas existentes em toda a província de Trás-os-Montes, encontravam-se reputadas a nível nacional."Fernando de Sousa, op.cit.p.72

O início do século XIX marcou algum declínio e o anunciar das dificuldades que viriam ao longo das primeira décadas deste século. Cultivava-se grande número de amoreiras, sobretudo pretas, um pouco por todo o distrito de Bragança. Mesmo nos últimos anos do século XVIII o bicho da seda foi dizimado por doenças o que obrigou à importação de semente de Piemonte, Itália. Este facto, aliado a problemas nas técnicas de fabrico, ao monopólio dos Arnaults, os compradores combinarem entre si o preço dos casulos que compravam aos agricultores nas feiras, a de Mirandela era a mais importante, o contrabando vindo de Espanha, os impostos (1801) e o gosto pelo uso de sedas estrangeiras, fez com que se tornasse mais difícil enfrentar uma cada vez maior concorrência estrangeira em qualidade e preço.
Se o século XVIII representou o apogeu da produção de sedas em Trás-os-Montes o século XIX marca o seu lento declínio, ainda que, nos primeiros anos deste século se tenha mantido, com dificuldades, a produção. As invasões francesas iniciadas em 1807 nada ajudaram ao seu desenvolvimento. Com a abertura dos portos brasileiros aos produtos ingleses perdeu-se também um dos destinos mais importantes da seda transmontana. Devido ao abandono foram arrancadas muitas amoreiras e voltou-se outra vez a métodos antigos de produção o que não beneficiou a qualidade.

Panos artesanais produzidos actualmente pela Associação para o Estudo, Defesa e Promoção do Artesanato de Freixo de Espada à Cinta.

"A escassez de capitais, quer em Chacim, quer em Bragança, onde – apesar de malograda tentativa efectuada pela Real Companhia das Sedas –, nunca surgiu um projecto endógeno, aglutinador, que congregasse efectivamente os Arnauds e os negociantes e fabricantes de sedas da região, revelou-se dramática para a indústria das sedas em Trás-os-Montes. Para continuar, as sedas trasmontanas necessitavam de mercados garantidos e de aperfeiçoamentos contínuos. Só que as invasões francesas e a extinção do regime de monopólio do mercado brasileiro destruíram aqueles e impediram estes. Após 1813-1814, os esforços dos Arnauds para arrumarem e disciplinarem a casa trasmontana quanto à criação do bicho da seda, produção de casulo e fiação, revelam-se infrutíferos, os fabricantes de Bragança debatem-se com dificuldades crescentes quanto à venda dos seus tecidos, e o Estado mostra-se cada vez mais renitente em intervir, abandonando a indústria das sedas daquela região à sua sorte." Fernando de Sousa, op.cit.p.97

Em 1830 só já havia em Bragança sessenta teares e em Chacim catorze. Em 1844 os ditos sessenta teares tiveram de fechar devido à concorrência estrangeira. Os lavradores começaram eles próprios a fazer a fiação o que diminuiu a qualidade da seda. Houve ainda vários pedidos para se concentrar o filatório da seda num único local mas tal nunca viria a acontecer. Os compradores de seda viraram-se para o estrangeiro, em especial para Itália. Começaram também a surgir novas fábrica em Lisboa, no Porto e noutras cidades do país com novas técnicas de fiação enquanto em Trás-os-Montes se continuava com os velhos teares. As velhas amoreiras pretas estavam a ser substituídas pelas mais macias amoreiras brancas. Também nas amoreiras a região não acompanhou a modernização e continuou com as amoreiras pretas.


Abade de Baçal, op.cit.p.466

A produção de casulo em Trás-os-Montes estava em franco declínio a partir de meados do século XIX. As moléstias continuaram e a produção de bichos da seda pelos lavradores não era feita nas melhores condições. Contudo, continuou a haver algumas tentativas de fomento mas que não perduraram no tempo.

"Por decreto de 29 de Outubro de 1891 foi transformada a Estação Químico-agrícola da 2.ª Região Agronómica de Mirandela, à frente da qual tinha estado João Inácio de Menezes Pimentel, em Estação de Sericicultura, tendo por objectivo: habilitar pessoal em todos os serviços atinentes à criação do sirgo; produzir semente seleccionada para
ser vendida aos sericicultores, aos quais prestaria as informações de que necessitassem; ensaiar e aperfeiçoar os processos sericícolas e promover a replantação das amoreiras, tendo para isso viveiros para as vender a quem as quisesse." Abade de Baçal, op.cit.p.467.


Tear artesanal para o fabrico de lenços de seda na Ásia

Contudo, este esforço foi depois desviado ou abandonado. A Estação de Sericicultura de Mirandela foi transformada em Estação Transmontana de Fomento Agrícola em 1898 para atender à replantação de vinhedos destruídos pela filoxera.
Os finais do século XIX trouxeram o aniquilamento quase total da seda no distrito de Bragança. O Abade de Baçal chamou-lhe um "baque medonho" o que aumentou a emigração, ano após ano, em especial para o Brasil, atingindo a cifra de sete mil indivíduos em todo o distrito em 1912, fora aqueles que embarcaram clandestinamente.
A produção de vinho conseguiu atenuar, em parte, o abandono da seda. A indústria da seda sobreviveu ao século XIX nalguns concelhos do Sul do distrito de Bragança como Freixo de Espada à Cinta mas com uma produção muito limitada, nos concelhos do Norte desapareceu completamente.

Todo o ciclo da seda sobreviveu até hoje em Freixo de Espada à Cinta mas do ponto de vista artesanal. Do ponto de vista industrial desapareceu algures durante o século XX.
Pereiros participou neste último suspiro da indústria da seda transmontana até aos anos 40 do século XX. A quem seriam vendidos os casulos de sede produzidos por algumas famílias de Pereiros? E as amoreiras com grandes troncos que ainda subsistem? Quando foram plantadas? No apogeu da produção de seda no século XVIII?



6 comentários:

  1. Prezado Senhor:
    Eu corro uma publicação online dedicada ao estudo da sericicultura em Espanha. Estou muito interessado em ter informações sobre as variedades nativas de seda em Portugal, mas é quase impossível de encontrar. Por isso agradeceria se você sabia que uma fonte ou de alguém que poderia me dizer ficaria muito grato. Convido-vos também de publicar qualquer artigo sobre a produção de seda de um país, acredite em mim, temos uma falta de conhecimento sobre os nossos irmãos lusos. Não mais implorando ajuda sua eu digo adeus. Graças.
    follalcauciles@blogspot.com xavierailonxe@gmail.com

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  2. No pequeno artigo que publiquei sobre a minha aldeia consultei o professor Fernando de Sousa e a sua obra: A indústria da seda em Trás –os- Montes. Uma parte do seu trabalho pode ser encontrado na Net, basta procurar com o nome dele e o título que lhe indiquei. Sobre este assunto ele publicou dois volumes que também podem ser encontrados na pesquisa da mesma maneira e adquiridos online. Em relação ao Abade de Baçal a obra dele sobre Trás – os – Montes é extensa, 12 volumes, a seda é apenas uma capítulo. Contudo, as informações por ele estudadas são muito importantes. A obra foi publicada num único DVD pela Câmara Municipal de Bragança a um preço excepcional, 5 Euros. Também se pode consultar na net outros tipos de trabalhos sobre a seda em Portugal no reinado de D. José I e o governo do Marquês de Pombal. Pode haver algumas referências também na politica industrializadora do Conde da Ericeira.
    Espero ter ajudado. Obrigado pelo seu contacto, se eu puder ajudar diga.
    Hernâni

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  3. Caro senhôr , obrigado pelo artigo .Gostaria de produzir Sêda .Poderia diz~er-me a quem contactar se souber ? É que não encontro nada sôbre como começar a produzir sêda em Portugal .Por onde começar ...êste é , actualmente , uma tristêza de país , pobríssimo de Espírito e de Inteligência , sabendo nós a Potencialidade de Portugal em muitos Campos , entre os quais , a Producção de Sêda , pois têmos condições excepcionais para isso , e para muito mais .

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  4. olá boa tarde, sabe informar-me se ainda produzem seda aí na sua aldeia? e como adquirem os casulos?
    obg
    Paula

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    1. Boa noite Rogério,

      O único local onde se produz seda em Trás-os- Montes foi em: Todo o ciclo da seda sobreviveu até hoje em Freixo de Espada à Cinta mas do ponto de vista artesanal.Associação para o Estudo, Defesa e Promoção do Artesanato de Freixo de Espada à Cinta. Do ponto de vista industrial desapareceu algures durante o século XX. Só eles o podem elucidar sobre as técnicas de criação e produção de seda.
      Espero ter ajudado.

      Cumprimentos,

      Hernâni

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  5. Boa noite Paula,

    Infelizmente já não se produz seda na minha aldeia há muitos anos.

    Cumprimentos,

    Hernâni

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