BEM – VINDO
O objectivo deste blog é duplo, dar a conhecer Pereiros de Ansiães, a sua história, a sua paisagem, o seu património e as suas tradições; é também uma forma de fazer aquilo que eu gosto, de partilhar emoções e memórias.
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quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Portugal Antigo e Moderno de 1873

Portugal Antigo e Moderno, dicionário de Augusto Soares d'Azevedo Barbosa de Pinho Leal, publicado em Lisboa em 1873, faz uma pequena referência à aldeia de Pereiros quando esta  pertencia já ao Concelho de Carrazeda de Ansiães. Faz ainda questão de referir o ano de 1757, quando Pereiros pertencia à Ordem dos Hospitalários ou de Malta, integrada na comenda de Freixiel e dependendo de Vila Nova de Poiares, atestando a sua importância e privilégios.



domingo, 7 de dezembro de 2014

Memórias paroquiais da Freguesia de Pereiros de 1758 - 5


Serra Tinta - 1, 2, 8, 10, 11


Trata-se da Serra
1- Tem uma serra que se chama Serra Tinta
2 - Tem de cumprimento legoa e meia, e de largo huma legoa, e principia do nascente desviada da villa de Freixiel meya legoa e acaba para o poente no rio Tua.
8 - He bastantemente montanhosa e he rustica parte della, e tem muitas oliveiras principalmente em huma beira della que chamam a Ribeira de Pereiros.
10 - He bastantemente bela e falta de agoas
11 - Criam-se nela muitos gados ovelhum e cabrum e muita caça de coelhos e perdizes e lobos
Do rio se tratou no tratado da Freguesia do Pinhal, pois passa ao pé de ambas as freguesias, e não há mais que se diga della do que está dito; e aos mais parágrafos e interrogatórios a que se não respondeu, he porque não avia que dizer a eles. 




Certeficou o P.e Ant.º Lopes Trigo, vigario colado desta parochial igreja de nossa Senhora das Neves do lugar do Pinhal com P.º de Mont.º que por me ser recomendado pelo Rd.º Doutor vigario geral desta Com.ª (comarca) fui a freguesia de Santo Amaro de Pereiros da Sagrada Religião de Malta, e de tudo o que nella achei e continha pellos paragrafos e interrogatorios que me foram enviados pello dito senhor em letra redonda, a elles respondi o que avia na dita freguesia digno de se relatar, pellos paragrafos e interrogatorios atrás numerados e aos que se não respondeu foi por não aver que dizer a elles, e para testemunho desta verdade forão testemunhas  André Pinto Trigo do dito lugar de Pereiros, e Rafael Pinto Trigo do mesmo que assinaram comigo, o que tudo juro in verbo sacerdotes e por impedimento que tinha mandei na targeta que assinei em Pinhal aos vinte e cinco dia do mes de Março de mil e sete centos e cincoenta e outo annos.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Memórias Paroquiais da Freguesia de Pereiros de 1758 - 4

Questões 15,16,17,20 e 21



15 - Os frutos que os moradores da terra recolhem em mayor abundancia, hé pam centeyo; mas ainda nam chega para o gasto da mesma terra e algum vinho, cevada em abundancia.

16 - Esta sujeita ao juis ordinário da villa de Freixiel por do seu termo e concelho, que também tem camera.

17 - He terra do Senhor infante Dom Pedro e o mesmo Serenissimo Senhor pedimos justiças da dita terra.

20 - Por não  ter correyo, se serve do correyo da villa de Carrazeda de Ansiaens que dista della legoa e meya.

21 - Fica distante da cidade de Braga vinte e duas legoas que hé do seu Arcebispado; e da cidade de Lisboa de sesenta e duas legoas


domingo, 9 de novembro de 2014

Memórias Paroquiais da Freguesia de Pereiros de 1758 - 3

Questões 7, 8, 9 e 13



7 - Santo Amaro he o seu orago; e tem a igreja matriz tres altares, hum o altar mor que está na capella mayor, aonde esta colocado o Santíssimo Sacramento, e dois altares colaterais munto semelhantes ao pé do arco da igreja, em hum esta a imagem perfeitíssima de nossa senhora do Rosário, e em outro; esta hum Santo Cristo que faz muntos milagres, e he imagem tambem perfeitíssima.
 
8 - O parocho della he vigario que representa o venerando Balio Comendador de Poyares Frey Joze Telles; e renderá a dita igreja oitenta mil reis pouco mais ou menos.
 
13 - 9 - Tem huma ermida no fim da povoacam para a parte do poente, a qual hé de Santo André, feita de bonna cantaria, he sujeita á mesma igreja; e como lugar de Codesais tem outra capella ou ermida da Senhora da Comceipçam, que tem sua irmandade e romagem a que acode munta gente principalmente no seu dia, e no dia 19 de Agosto em que se faz anniversario.
 
 
Nota: Chamava-se Baylias ou Balias às principais comendas, designadamente nas ordens militares do Hospital ou de Malta; na ordem dos Templários mais tarde de Cristo. Balio - Assim se designava o comendador destas ordens.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Memórias Paroquiais da Freguesia de Pereiros de 1758 - 2

Memórias Paroquiais da Freguesia de Pereiros de 1758 - Questões 4,5 e 6



4- Acha-se situada em as fraldas de huma serra chamada o Castello de Pereiros, e sem ser artemanufacto, so sim ser hum pinhasco tam levantado, que do alto delle athe o rio Tua aonde principia a dita serra he huma grande legoa que tudo quasi consta de pinhascos, e terra munto fragada, e desta povoacam se veem muntas terras, huma o Navalho lugar que fica distante da mesma povoacam duas légoas, a villa de Lamas de Orilham; e do dito Castello e alto da dita serra se descobre a maior parte da provincia de Tras os Montes, parte da Beira, Minho e ainda terras de Espanha.
 
5- He termo da villa de Freixiel; tem um lugar que se chama Codesais que hé desta mesma freguesia que tem quarenta vezinhos que ficam metidos no mesmo numero de cima.
 
6- Está a parochia e igreja matriz dentro do dito lugar de Pereiros, no meio delle, mas de lado para a parte do Sul,  até o lugar de Codesais hé sujeito a ella.
 
 
 
 
Nota: artemanufacto - construído
           vezinhos - moradores
           legoa - légua - 5 km
           povoacam - povoação
           Lamas de Orilham - Lamas de Orelhão, vila e concelho.
 
Nota: "de lado para a parte do sul" (...) As igrejas cristãs têm, por razões litúrgicas, simbólicas, a capela mor voltada a sul, a nascente. É aí que deve estar o sacrário, o corpo de Cristo. Esta colocação favorece ou desfavorece, do ponto de vista arquitetónico, a igreja! No caso de Pereiros favorece, a fachada monumental fica virada a poente de frente para a aldeia e o Castelo. Por exemplo em Zedes é o contrário. 
 
 

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Infante D. Pedro III


 Memórias paroquiais da freguesia de Pereiros  de 1758

Nota: resposta ao inquérito - 2 - "Sereníssimo Senhor dom Pedro Infante de Portugal..."




Dom Pedro III
 
D. Pedro III de Portugal (nome completo: Pedro Clemente Francisco José António de Bragança; 5 de Julho de 1717 — 25 de Maio de 1786), Infante de Portugal, Senhor do Infantado, Grão-Prior do Crato, Duque de Beja, posteriormente Príncipe consorte do Brasil e Rei de Portugal de jure uxoris, foi o quarto filho do rei D. João V e da rainha D. Maria Ana.
D. Pedro era assim irmão de D. José I. Em 6 de Junho de 1760 casou-se com a sobrinha e herdeira da coroa D. Maria Francisca. Com a subida da mulher ao trono em 1777 tornou-se rei consorte de Portugal sendo cognominado "O Capacidónio" pela maneira como se referia a várias pessoas ou "O Sacristão" pelo seu fervor religioso ou ainda "O Edificador" pela sua iniciativa de edificar o Palácio de Queluz.
Pedro foi uma figura neutra da política e alheou-se sempre dos aspectos governativos.










Nota - Grão-Prior do Crato -  A Ordem dos Hospitalários ou de Malta  tinha a sua sede em Portugal na vila do Crato (Mosteiro da Flor da Rosa). Ser Prior do Crato era ser Prior da Ordem dos Hospitalários ou de Malta. (A a sua sede principal era na ilha de Malta.)
 
Ordem Soberana e Militar Hospitalária de São João de Jerusalém, de Rodes e de Malta





A rainha D. Maria I e o rei D. Pedro III de Portugal.



Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.




Memórias paroquiais da freguesia de Pereiros de 1758 - 1


Memórias paroquiais da freguesia de Pereiros de 1758 -  Questões 1, 2 e 3



 
Pereiros
 
Freguesia de Santo Amaro da sagrada religião de Malta
 
 
1. Fica esta freguesia em a província de traz dos montes do Arcebispado de Braga primaz, Comarca de Torre de Moncorvo, e concelho da villa de Freixiel.
 
2.  Hé esta terra donataria e o senhor della he o Sereníssimo Senhor dom Pedro infante de Portugal que Deus guarde por muitos e felizes anos.
 
3. Tem esta freguesia cento e doze vezinhos e he o numero das pessoas de Sacramento duzentas e outenta e duas; e o numero de meninos e meninas chegaram pouco mais ou menos a setenta.

 
 
 
 
 
 



Memórias Paroquiais de 1758





MEMÓRIAS PAROQUIAIS DE 1758   



Um aviso de 18 de Janeiro de 1758 do Secretário de Estado dos Negócios do Reino, Sebastião José de Carvalho e Melo, fazia remeter, através dos principais prelados, e para todos os párocos do reino, os interrogatórios sobre as paróquias e povoações pedindo as suas descrições geográficas, demográficas, históricas, económicas, e administrativas, para além da questão dos estragos provocados pelo terramoto de 1 de Novembro de 1755. As respostas deveriam ser remetidas à Secretaria de Estado dos Negócios do Reino.

As respostas ao inquérito terão sido levadas para a Casa de Nossa Senhora das Necessidades, em Lisboa, da Congregação do Oratório, para serem trabalhadas pelo Padre Luís Cardoso (?-1769). O ex-libris existente na maioria dos volumes confirma esta custódia. O índice terá sido elaborado ou concluído no ano de 1832, data que apresenta. Passaram depois para a Biblioteca da Ajuda depois da extinção das ordens religiosas, seguindo para o Depósito Geral das Livrarias, no antigo Convento de São Francisco da Cidade, e daí para a Torre do Tombo entre os anos de 1836 e 1838.

As datas desta história custodial são incertas, mas encontra-se registado em livro do Ministério do Reino o ofício de 17 de Março de 1843, de D. Manuel de Portugal e Castro (vedor da Casa Real) reclamando como pertencentes à Biblioteca Real os 44 volumes que formam a coleção dos apontamentos para o dicionário geográfico de Portugal, reunidos pelo Pe. Luís Cardoso. Na sequência, surge a Portaria de 21 de Março de 1843 do Ministério do Reino para a Torre do Tombo, inquirindo sobre a existência dessa coleção neste arquivo, para onde tinha sido conduzida pelo Dr. António Nunes de Carvalho (guarda-mor da Torre do Tombo entre 1836 e 1838), retirando-a do Depósito Geral das Livrarias dos extintos conventos. A resposta dada pela Torre do Tombo, a 27 de Março do mesmo ano, confirmou a existência dessa coleção, referindo que não devia sair do arquivo, porque não era propriedade particular, mas sim o resultado de uma diligência que o Governo mandara fazer.



Âmbito e conteúdo
 


Esta coleção é constituída pelas respostas elaboradas pelos párocos ao interrogatório, através do qual se pretendia obter informações sobre as paróquias, abrangendo a totalidade do território continental português. Apesar de a exaustividade das respostas não ser constante, apresentam-se, na generalidade, de forma sequencial aos pontos do interrogatório (que está dividido em três partes relativas à localidade em si, à serra, e ao rio) fornecendo dados de carácter geográfico (localização, relevo, distâncias), administrativo (comarca, concelho, dimensão, e confrontações), e demográfico (número de habitantes), sendo possível obter informações sobre a estrutura eclesiástica e vivência religiosa (orago, benefícios, conventos, igrejas, ermidas, imagens milagrosas, romarias), a assistência social (hospitais, misericórdias, irmandades), as principais atividades económicas (agrícola, mineira, pecuária, feira), a organização judicial (comarca, juiz), as comunicações existentes (correio, pontes, portos marítimos e fluviais), a estrutura defensiva (fortificações, castelos ou torres), os recursos hídricos (rios, lagoas, fontes), outras informações consideradas assinaláveis (pessoas ilustres, privilégios, antiguidades), e quais os danos provocados pelo terramoto de 1755.



Instrumentos de pesquisa


ARQUIVO NACIONAL DA TORRE DO TOMBO - [Base de dados de descrição arquivística]. [Em linha]. Lisboa: ANTT, 2000-. Disponível no Sítio Web e na Sala de Referência da Torre do Tombo. Em atualização permanente.

O título da coleção "Memórias Paroquiais" é um título consagrado pelo uso, e surge na maioria das monografias que utilizam ou transcrevem documentos desta coleção. No entanto, os volumes que constituem a coleção apresentam na lombada a designação de "Dicionário geográfico de Portugal" e o vol. 44 apresenta na página de rosto "Índice geográfico das cidades, vilas e paróquias de Portugal conteudas nos 43 volumes manuscritos do Dicionário Geográfico existente na Biblioteca das Senhora das Necessidades". Os autores Fernando Portugal e Alfredo de Matos (In: Lisboa em 1758. Lisboa: [s.n.], 1974. p. 13) consideram que é um erro chamar-se Dicionário Geográfico de Portugal às Memórias Paroquiais, uma vez que as respostas dos párocos utilizadas para a elaboração do Dicionário Geográfico do Padre Luís Cardoso foram destruídas pelo terramoto de 1755.


NOTA: Na paróquia de Pereiros as respostas ao inquérito das Memórias Paroquiais de 1758 foram dadas pelo vigário António Lopes Teixeira tendo como testemunhas André e Rafael Pinto Trigo aos 25 dias do mês de Março deste mesmo ano.

Estas memórias vão ser publicadas por partes, o texto original e a respetiva tradução em português moderno. Estas memórias são uma excelente síntese da vida das paróquias daquela época.
















                                                             

                                                                










quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Terras da comenda - 1

O caminho faz-se... caminhando

Agosto, infelizmente, não tive um dia completo em Pereiros. Aproveitei dois fins de tarde e pus-me ao caminho. Eu já sabia o seu significado, que elas estavam por ali, algures. Peguei no livro "Por Terras de Ansiães" e, depois de uma conversa com o seu autor, Cristiano Morais, munido com a cópia das demarcações feitas pelo juiz em 1728, comecei por aquela que conhecia.

O que procurei foram as cruzes de demarcação da comenda de Freixiel da Ordem dos Hospitalários ou de Malta.
A História de Pereiros está intimamente ligada à de Freixiel, pertenceu a este concelho durante centenas de anos e foi, integrado no concelho de Freixiel, comenda da Ordem do Hospital mais tarde também chamada de Malta. Freixiel, Pereiros, Codeçais e Mogo de Malta pertenciam a esta comenda.

Comendas eram benefícios eclesiásticos concedidos pelo rei a quem desejava recompensar de quaisquer serviços. A introdução da Ordem dos Hospitalários em Portugal ocorreu nos inícios do século XII.
Entre 1122 e 1128 D.Teresa, mãe de D. Afonso Henriques, concedeu-lhe o mosteiro de Leça do Balio, a sua primeira casa capitular. A organização dos freires do Hospital em Ordem de Cavalaria, de forma a constituir um corpo militar que fosse importante na Reconquista, só aconteceu no reinado de D. Afonso Henriques. Portugal envolvido em lutas constantes com os muçulmanos e em fase de alargamento das suas fronteiras para sul precisava de forças fiéis, militarmente organizadas capazes de ajudar no esforço de guerra. As ordens religiosas militares eram bem o exemplo. Por isso, foram recompensados com largos domínios de terras no Sul do país e numerosos pequenos domínios dispersos pelo Centro e Norte de Portugal. Era o caso da comenda de Freixiel.

A paróquia de Santa Maria de Freixiel foi retirada de Ansiães e doada por D. Teresa, nos inícios do século XII, à Ordem dos Hospitalários. Entre doações, compras, vendas e trocas, houve um total de 54 comendas da Ordem do Hospital em Portugal. Estas comendas não existiram todas em simultâneo. A comenda de Freixiel manteve-se até ser extinta pela reforma liberal de 1834.

As comendas eram fonte de grandes rendimentos para a ordem. Foram estes rendimentos que financiaram hospitais e fortalezas nos caminhos das Cruzadas para a Terra Santa e em Jerusalém; assistência aos peregrinos nos caminhos de S. Tiago para Compostela e a construção de castelos de Norte para Sul do nosso país, no longo processo de reconquista contra os muçulmanos. São quase 900 anos! Ainda antes da independência de Portugal em 1143.
Por isso, temos que olhar para elas como símbolos de Portugal, um país que se formou com a espada numa mão e a bíblia na outra. Mais tarde, depois da reconquista de todo o território e do fim das cruzadas, estas comendas foram usadas pelo rei para recompensar quem ele muito bem entendeu. Tornaram-se uma forma de sobrecarregar os camponeses com mais impostos.

Estas demarcações foram feitas em 1728: "...aos dittos quinze dias do mez de Dezembro (...) logo que foy feyto o autto retro pareceram prezentes os offeciaes da Camara desta Villa de Anciaes no autto retro nomeados e em prezenca delles e dos de Freixiel e da mayor parte dos moradores da Felgueira, Brunheda e Sentrilha e dos Codesaes e Pereiros mandou o ditto Bernardo de Figueiredo, Juis do tombo, continuar a devisam e demarcacam e se continuou pella maneira seguinte:" Cristiano Morais, Por Terras de Ansiães, p.436.
As cruzes do século XVIII foram feitas com base noutras já existentes de 1614 pelo "Lesenciado" Gonçalo de Lemos da Roza.











Estas duas demarcações apresentadas nas fotografias marcam um percurso. A cruz grande no malhão situado no caminho para a Felgueira, no Chão do Rente, confirma o termo de demarcação entre os limites da Felgueira e Pereiros (malhão do lado esquerdo) e entre Pereiros e Zêdes, no Vale da Porca. (Cruzes do lado direito)

"E prosseguindo a mesma direitura e demarcacam do Cham do Rente de sima no simo delle e ao pé do caminho que vay de Felgueira para o lugar dos Pereiros, no sima da Costeirinha da Justa se achou em hum penedo a Comenda de Malta, ao pé della no mesmo penedo mandou elle juis fazer huma crus e levantar no caminho um malham (...)" Cristiano Morais,op.cit. p.437.

As demarcações entre o Chão do Rente, no caminho da Felgueira e a Fonte Quente, estão por localizar. Ficam para outra altura. Entre a Fonte Quente e o Vale da Porca localizei quatro cruzes, estão indicadas no percurso do mapa de satélite. Pelas distâncias neste percurso, entre as quatro cruzes, deve haver mais duas. Com um GPS podiam ser tiradas, com grande precisão, as coordenadas geográficas de todas as demarcações, assim, estão apenas marcadas de forma aproximada. A fotografia de satélite é, devido ao tamanho do mato e aos efeitos do incêndio, logo a seguir a 2003.


Ver Pereiros, marcações da Ordem de Malta num mapa maior

A demarcação da comenda dos hospitalários mais fácil de encontrar fica na Fonte Quente. É interessante como o limite da comenda e do antigo concelho de Freixiel descia tanto em relação àquilo que nós hoje chamamos o Termo de Pereiros.
A cruz encontra-se, não no penedo grande, mas nas pedras situadas na sua base voltada a nascente. A toponímia, os nomes das propriedades rurais, geralmente, mantêm-se as mesmas do século XVIII para a actualidade. O nome Fonte Quente não está referido.



As cruzes grandes que o juiz mandou circular como esta do penedo da Fonte Quente têm 35cm. Têm um relevo bem marcado com a cruz dos Hospitalários o que as torna inconfundíveis.




"(...) que decia a demarcacam
direita ao nascente pello Seixigal abaixo e ao pé do mayor penedo movediço, digo penedo maciço que esta por sima do ribeiro da parte norte do mesmo penedo, em huma lage se achou a Comenda de Malta, e coiza de duas varas della no dito grande penedo da ditta parte do norte delle mandou elle juis fazer huma grande cruz." Cristiano Morais, op,cit.p.438

"E desta crus pasa o ribeyro que chamam do Sabiello que vem do Logoeiro e dece para o lugar dos Pereiros" Cristiano Morais, op.cit.p.438






A demarcação desce algures da Felgueira (a única marcação encontrada foi o malhão do Chão do Rente) direita ao penedo do lado poente da estrada municipal Pereiros - Zêdes e segue para nascente, atravessando o ribeiro.



"(...) e continu
ando a demarcacam direita para o nascente por humas fraguas asima na mais alta que esta no simo dellas mandou elle juis fazer uma crus." Cristiano Morais, op.cit.p.438







As cruzes intermédias têm aproximadamente 24cm. Esta foi feita no topo de um conjunto comprido de penedos do lado nascente do ribeiro do "Sabiello". Na fotografia pode ver-se, ao fundo, o penedo a poente do ribeiro, por cima da estrada e, imaginar a linha de demarcação.




Desta crista de penedos de granito, do lado nascente do ribeiro do "Sabiello", ao lado do antigo caminho, avista-se Pereiros e as terras da comenda.




Esta cruz intermédia também com 24cm está mais próxima do caminho do Vale da Porca. como se pode ver na fotografia da esquerda, marca uma linha recta, a longa distância, em direcção à cruz do lado nascente do ribeiro do "Sabiello", mostrada anteriormente. Na fotografia do meio, pode ver-se que a cruz de demarcação foi feita paralela à estrada, na chamada subida do Termo. Contudo, não foi a estrada que lhe serviu de referência mas sim o antigo caminho Pereiros - Zêdes. É entre esta cruz intermédia e as duas que sobem da Fonte Quente e atravessam o ribeiro que deverá haver mais duas. A fotografia da direita, aponta já para o alto entre o Termo e o Vale da Porca, onde vamos encontrar outra cruz principal, mesmo ao lado do caminho. O mato que cresceu depois do incêndio de 2003 não facilita a busca naquele vale apertado onde existiam calçadas cultivadas.

Ao lado do caminho para o Vale da Porca, a menos de 100 metros da estrada municipal, no alto que divide o Termo do Vale da Porca, do lado esquerdo, podemos encontrar este conjunto magnífico, uma cruz grande circular com os habituais 35cm e, outra ao lado, também com os habituais 24cm.












"E no simo da mesma Fragua da Coriscada em huma pedra baixa que esta no mesmo lado sul se achou outra Comenda da Ordem de Malta (...) o dito juis mandou fazer outra crus acomendada ao pé da ditta comenda na mesma pedra (...)
A qual demarcacam se continua das dittas cruzes e comendas que estam no ditto simo da Fraga da Coriscada, entre o limite do lugar de Pereiros que athe agora vinha continuando com o da Felgueira, a continuar-se com o lugar de Zedes que segue ao da mesma Felgueira, prezentes a mayor parte dos moradores do ditto lugar de Zedes e mais os do lugar dos Pereiros (...) Cristiano Morais, op.cit.p.438

Passando as cruzes da comenda, começando a descer o caminho para o Vale da Porca, vê-se novamente a aldeia a espreitar ao fundo. As demarcações continuam mas, em que direcção?... "a um tiro de barreira do lameiro do Vale da Porca"... pois... a partir daqui abrem-se novos horizontes, em frente o Carvalhal e os Folgares, ainda segui o caminho até aos nascentes, não era o dia de encontrar mais nada.

No regresso, um último olhar sobre Pereiros neste fim de tarde de Agosto. Uma brisa fresca compensa o esforço.

Já de noite uma última paragem. Está uma lua cheia fantástica. Estas cruzes estão aqui desde 1614 (século XVII) e 1728 (século XVIII)! O que diriam os juízes que as mandaram fazer se me vissem aqui sentado, sozinho, a esta hora. A paisagem está completamente alterada e adulterada! Basta recuar na memória vinte e cinco anos, os pinhais, por onde se podia circular livremente, foram substituídos por este deserto de mato denso.

Passei por este caminho durante quase vinte anos! Quando andava às perdizes com o meu tio, João Baptista Pinheiro, iniciávamos a jornada de caça mais ou menos neste local. Por incrível que pareça, nunca vi estas duas cruzes...
Fiquei aqui sentado também por causa dele, há momentos e emoções que se partilham, mesmo com pessoas que já não estão fisicamente connosco... que saudades!

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

A seda em Trás-os-Montes

A seda é de origem chinesa. Contudo, situar o seu aparecimento no tempo é um mistério. Por isso é que se recorre à lenda: a imperatriz Si Ling Chi foi a primeira a descobrir a seda há mais de cinco mil anos. A história diz que, enquanto sentada debaixo de uma amoreira, no jardim do palácio, a imperatriz foi tomando chá. De repente, dos galhos da amoreira, caiu um casulo na sua chávena de chá quente e ela reparou que um filamento branco, brilhante e muito resistente se começou a desenrolar...
Para obter o fio seda é preciso ferver os casulos, cada um del
es tem à volta de 600 a 900 metros de filamento e são precisos cinco a oito filamentos para fazer um fio de seda. Por volta de 1400 antes de Cristo a seda desenvolveu-se na China como um indústria, tornando-se um dos principais elementos da sua economia.

Cesto de casulos de seda produzidos em Freixo de Espada à Cinta

Os chineses conseguiram manter este segredo bem guardado por mais de dois mil anos. Qualquer pessoa que fosse apanhada a traficar ovos, bichos da seda, casulos ou sementes de amoreira era condenado à morte. Os funcionários chineses eram pagos em seda, era também usada como moeda de troca internamente e externamente. Os chineses exportaram a seda para Ocidente através da famosa Rota da Seda, era assim que chegava ao Império Romano onde era paga a peso de ouro.
Por volta de 200 antes de Cristo muitos chineses emigraram para a Coreia e levaram consigo o segredo da seda. Assim, o segredo da seda viajou lentamente pela Ásia. Quinhentos anos depois estava na Índia. Só no século XIII, 1200 anos depois do nascimento de Cristo é que a seda chegou a Itália, através da contratação de tecelões de seda da Pérsia.
A seda chegou a Portugal pouco depois. Segundo ao Abade de Baçal a seda chegou a Trás-os-Montes no século XV:

"Em 1475 o duque de Guimarães representou a el-rei que tendo feito contrato com Rui Gonçalves de Portilho e Gabriel Pinello, genovês, para lavramento da seda em Bragança, e não sendo a da terra suficiente, porque era indispensável mais fina, lhe pedia, portanto, que isentasse de direito a que importasse de Almeria e de outras partes de fora do reino, para aquele serviço. D. Afonso V concedeu-lhe a isenção com certas cláusulas. (...) Em 1531 pedia-se ás côrtes que as sedas que se creassem e obrassem em velludos, tafetás, retrozes e outras obras, assim na cidade (de Bragança) como na terra, podessem ir livremente pelo reino vender-se, sem pagarem nenhuns direitos de alfandega, levando certidão do escrivão da Camara."(Abade de Baçal, Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança, tomo II, p. 452)

Produção artesanal de seda na actualidade - Freixo de Espada à Cinta

Mas, foi no século XVIII, no reinado de D.José I, que o marquês de Pombal desenvolveu e protegeu as indústrias portuguesas provocando um surto manufactureiro da seda em Trás-os-Montes.

"As suas manufacturas tem muita extracção para todo o reino e foram mesmo para a America, para o que concorre muito a liberdade de extracção, sem paga
r direitos, concedida ás manufacturas do reino por D. José I, pelos decretos de 2 de abril de 1757 e 24 de outubro do mesmo anno. Sustenta o dito negociante João Antonio Lopes Fernandes cento e oito teares, sendo o maior numero de tafetás em que consome todos os annos oito mil arrateis de seda, a qual é de Italia quasi toda por ser a da provincia muito mal fiada. A provincia de Traz-os-Montes é tão abundante de seda que colhe regularmente vinte mil arrateis della fina e outro tanto de seda macha e redonda." (Abade de Baçal, tomo II, p.455) (1 arrátel, também chamado de libra, era igual a: 0,459 kg)

Além de Bragança desenvolveram-se outros centros produtores de seda. Foi aqui, durante o século XVIII que se iriam definir os principais pólos de produção. A vinda de famílias estrangeiras para a nossa região foi decisiva no desenvolvimento desta indústria:

Real Filatório de Chacim criado em 1788 por decreto de D. Maria I

"A família italiana dos Arnauds, perita na indústria das sedas, vinda para Portugal em 1786-1788, acaba por se instalar em Trás-os-Montes, na localidade de Chacim, onde, sob a sua orientação, é construída uma Fábrica de Fiação e Tecelagem das Sedas, que se encontra concluída em 1790. A partir de então, os Arnauds promovem a criação de escolas de fiação pelo método piemontês nalgumas localidades de Trás-os-Montes e passam a fornecer seda torcida pelo referido método, de qualidade, às fábricas de Bragança. E esta cidade, por seu lado, irá atravessar uma das épocas de maior prosperidade da sua história. (...) Em 1790-1791, Freixo de Espada à Cinta, em obediência a uma longa tradição vinda seguramente do século XVI, se não mais cedo, continua a fabricar os panos de peneiras, tafetás, fumos e gravatas, trabalho este executado por mulheres, 38, que, em igual número de teares, pertencentes a 4 empresários, registam uma produção global de 975 peças de panos de peneiras, 38 gravatas e 6 280 côvados de tafetás e fumos" (Fernando de Sousa, A Indústria das Sedas em Trás-os-Montes (1790-1820), p. 66)(1 côvado era igual a 52,4cm)

Em finais do século XVIII o crescimento da produç
ão de seda em Trás-os-Montes era significativa, atingindo o seu apogeu na última década do fim deste século:

Real Fábrica da Seda - Chacim

"Entre 1790 e 1793-1794 a indústria das sedas desta vila (Chacim) conhece progressos espectaculares. Assim, a produção de seda torcida triplica, passando a 5 500 arráteis anuais. O número de teares aumenta de 37 para 57. A produção de tecidos quadruplica, saltando de 19 640 côvados para 80 525 côvados. E o número de pessoas ocupada nesta indústria quase triplica –aumenta de 140 para 379 –, isto é, mais de 60% da população total da vila (637 almas), assim distribuídos:
  • 100 homens e 120 mulheres nas fábricas, incluindo as dobadeiras;
  • 35 homens e 130 mulheres nos tornos de torcedura;
  • 6 homens e 8 mulheres na escola de fiação.
Os seus cetins, tafetás, veludos, gorgorões tinham “excelente extracção” para todo o Reino e para o Brasil." Fernando de Sousa, op.cit. p.70

Era em Bragança que estava concentrada a maior produção. Contudo estavam aqui definidos os três grandes centros da produção de seda transmontana: Bragança, Chacim e Freixo de Espada à Cinta.

Dubadoura artesanal de seda - Freixo de Espada à Cinta

"Mas era em Bragança, então a maior e mais rica cidade transmontana, desde sempre o mais importante centro desta indústria no Portugal do interior, que se registava uma animação invejável, de tal modo que a vida económica da cidade assentava fundamentalmente em tal actividade. As suas fábricas, com 232 teares e 9 tornos, em 1794, empregavam 915 pessoas – 407 fabricantes de seda e 508 mulheres –, além de 11 torcedores de seda, e 24 tintureiros, isto é, mais de 18% da sua população total. Nos seus tornos, eram preparados 4 500 arráteis de seda ao ano. E as suas cinco tinturarias, com excepção de uma modesta tinturaria em Chacim, as únicas existentes em toda a província de Trás-os-Montes, encontravam-se reputadas a nível nacional."Fernando de Sousa, op.cit.p.72

O início do século XIX marcou algum declínio e o anunciar das dificuldades que viriam ao longo das primeira décadas deste século. Cultivava-se grande número de amoreiras, sobretudo pretas, um pouco por todo o distrito de Bragança. Mesmo nos últimos anos do século XVIII o bicho da seda foi dizimado por doenças o que obrigou à importação de semente de Piemonte, Itália. Este facto, aliado a problemas nas técnicas de fabrico, ao monopólio dos Arnaults, os compradores combinarem entre si o preço dos casulos que compravam aos agricultores nas feiras, a de Mirandela era a mais importante, o contrabando vindo de Espanha, os impostos (1801) e o gosto pelo uso de sedas estrangeiras, fez com que se tornasse mais difícil enfrentar uma cada vez maior concorrência estrangeira em qualidade e preço.
Se o século XVIII representou o apogeu da produção de sedas em Trás-os-Montes o século XIX marca o seu lento declínio, ainda que, nos primeiros anos deste século se tenha mantido, com dificuldades, a produção. As invasões francesas iniciadas em 1807 nada ajudaram ao seu desenvolvimento. Com a abertura dos portos brasileiros aos produtos ingleses perdeu-se também um dos destinos mais importantes da seda transmontana. Devido ao abandono foram arrancadas muitas amoreiras e voltou-se outra vez a métodos antigos de produção o que não beneficiou a qualidade.

Panos artesanais produzidos actualmente pela Associação para o Estudo, Defesa e Promoção do Artesanato de Freixo de Espada à Cinta.

"A escassez de capitais, quer em Chacim, quer em Bragança, onde – apesar de malograda tentativa efectuada pela Real Companhia das Sedas –, nunca surgiu um projecto endógeno, aglutinador, que congregasse efectivamente os Arnauds e os negociantes e fabricantes de sedas da região, revelou-se dramática para a indústria das sedas em Trás-os-Montes. Para continuar, as sedas trasmontanas necessitavam de mercados garantidos e de aperfeiçoamentos contínuos. Só que as invasões francesas e a extinção do regime de monopólio do mercado brasileiro destruíram aqueles e impediram estes. Após 1813-1814, os esforços dos Arnauds para arrumarem e disciplinarem a casa trasmontana quanto à criação do bicho da seda, produção de casulo e fiação, revelam-se infrutíferos, os fabricantes de Bragança debatem-se com dificuldades crescentes quanto à venda dos seus tecidos, e o Estado mostra-se cada vez mais renitente em intervir, abandonando a indústria das sedas daquela região à sua sorte." Fernando de Sousa, op.cit.p.97

Em 1830 só já havia em Bragança sessenta teares e em Chacim catorze. Em 1844 os ditos sessenta teares tiveram de fechar devido à concorrência estrangeira. Os lavradores começaram eles próprios a fazer a fiação o que diminuiu a qualidade da seda. Houve ainda vários pedidos para se concentrar o filatório da seda num único local mas tal nunca viria a acontecer. Os compradores de seda viraram-se para o estrangeiro, em especial para Itália. Começaram também a surgir novas fábrica em Lisboa, no Porto e noutras cidades do país com novas técnicas de fiação enquanto em Trás-os-Montes se continuava com os velhos teares. As velhas amoreiras pretas estavam a ser substituídas pelas mais macias amoreiras brancas. Também nas amoreiras a região não acompanhou a modernização e continuou com as amoreiras pretas.


Abade de Baçal, op.cit.p.466

A produção de casulo em Trás-os-Montes estava em franco declínio a partir de meados do século XIX. As moléstias continuaram e a produção de bichos da seda pelos lavradores não era feita nas melhores condições. Contudo, continuou a haver algumas tentativas de fomento mas que não perduraram no tempo.

"Por decreto de 29 de Outubro de 1891 foi transformada a Estação Químico-agrícola da 2.ª Região Agronómica de Mirandela, à frente da qual tinha estado João Inácio de Menezes Pimentel, em Estação de Sericicultura, tendo por objectivo: habilitar pessoal em todos os serviços atinentes à criação do sirgo; produzir semente seleccionada para
ser vendida aos sericicultores, aos quais prestaria as informações de que necessitassem; ensaiar e aperfeiçoar os processos sericícolas e promover a replantação das amoreiras, tendo para isso viveiros para as vender a quem as quisesse." Abade de Baçal, op.cit.p.467.


Tear artesanal para o fabrico de lenços de seda na Ásia

Contudo, este esforço foi depois desviado ou abandonado. A Estação de Sericicultura de Mirandela foi transformada em Estação Transmontana de Fomento Agrícola em 1898 para atender à replantação de vinhedos destruídos pela filoxera.
Os finais do século XIX trouxeram o aniquilamento quase total da seda no distrito de Bragança. O Abade de Baçal chamou-lhe um "baque medonho" o que aumentou a emigração, ano após ano, em especial para o Brasil, atingindo a cifra de sete mil indivíduos em todo o distrito em 1912, fora aqueles que embarcaram clandestinamente.
A produção de vinho conseguiu atenuar, em parte, o abandono da seda. A indústria da seda sobreviveu ao século XIX nalguns concelhos do Sul do distrito de Bragança como Freixo de Espada à Cinta mas com uma produção muito limitada, nos concelhos do Norte desapareceu completamente.

Todo o ciclo da seda sobreviveu até hoje em Freixo de Espada à Cinta mas do ponto de vista artesanal. Do ponto de vista industrial desapareceu algures durante o século XX.
Pereiros participou neste último suspiro da indústria da seda transmontana até aos anos 40 do século XX. A quem seriam vendidos os casulos de sede produzidos por algumas famílias de Pereiros? E as amoreiras com grandes troncos que ainda subsistem? Quando foram plantadas? No apogeu da produção de seda no século XVIII?



quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Amoreiras para a produção de seda

Existem actualmente algumas dezenas de amoreiras de amoras pretas nos Pereiros. Se olharmos com alguma atenção vemos que estão um pouco por todo o lado: foram plantadas muito próximo das casas, nos quintais e "enchidos", junto dos ribeiros, ou seja, onde facilmente se podia ter acesso a elas. Nestas plantações relegaram-nas para junto dos caminhos, das paredes ou cantos de forma a não afectarem o cultivo das hortas e de outras produções agrícolas. Encostadas a um canto mas numerosas e importantes. Estas amoreiras serviram durante muitos anos para a produção de folha para alimentar o bicho da seda e, consequentemente, produzir casulos donde se extraía o fio de seda. Esta actividade chamava-se e chama-se sericicultura.

A produção de casulos do bicho da seda e de tecidos de seda foi, ao longo do século XVIII e XIX, uma das principais riquezas de Trás-os-Montes. Estes tecidos finos eram depois vendidos para todo o país, para a nossa colónia do Brasil e para outros países da Europa, onde se tornou famosa. (com a fuga da família real portuguesa e de parte da corte para o Brasil, em 1807, na sequência das invasões francesas, foi aí introduzida a sericicultura. Hoje o Brasil é um dos maiores produtores mundiais de seda) Adiante será publicado um pequeno artigo sobre a História da seda em Trás-os-Montes e o ciclo do bicho da seda.Pereiros também participou neste desenvolvimento da sericicultura que atingiu o seu apogeu no século XVIII.
Actualmente, o que restou foram estas amoreiras pretas e a toponímia, os nomes dos caminhos onde foram plantadas. Por isso, é que as pessoas chamam a alguns lugares "moreiras" ou amoreiras. Na fotografia, no caminho das"moreiras" que vai para a "Comprada" e o campo de futebol, encontramos esta amoreira pendurada na parede. Ao lado dela, está cortado para lenha, o tronco de outra amoreira que se pendurava no mesmo local.
O problema com estas amoreiras é que elas perderam o seu papel principal, a produção de folha para o bicho da seda. As suas amoras, apesar de algumas pessoas as comerem e se poder fazer compota, são pouco saborosas e digestivas. Quem arrisca comer estas amoras fica com os dentes e os lábios pintados, por isso, quando eu era rapaz as usava para pintar nas pedras. A outra razão para não se poderem comer está na pequena ficha científica que transcrevi em baixo - são um laxante poderoso. Nem os pássaros parecem ser grandes apreciadores deste fruto caso contrário não se acumulavam em tamanha quantidade no chão.

Amoreiras em terras do Eng. Faria ao lado do caminho com o nome de "Moreiras"

Ao longo do caminho das "moreiras" podemos encontrar amoreiras nos terrenos que pertenceram ou pertencem ao sr. Eng. Faria. Algumas destas amoreiras nem parecem ser muito velhas quando comparadas com outras. A razão é muito simples: várias pessoas ainda se lembram da criação de bicho da seda na "casa da aula" da D. Elisa Trigo, ou seja, a mãe de D. Maria Augusta casada com o Eng. Faria. Esta criação do bicho da seda ainda se fazia há 63 ou 64 anos. A antiga "casa da aula" fica próxima da casa da D. Elisa, em frente à actual casa de Álvaro Borges. Quem, nessa altura, alimentava e tratava dos bichos da seda era a sra. Maria Barreiras e a sua filha Fernanda Barreiras. Segundo alguns testemunhos a sala estava completamente cheia de bichos da seda.
Também a sra. Eulália Moreira confirmou que a sua mãe, Maria dos Ramos, criava bichos da seda, na sala de sua casa, onde eles moram actualmente. Esta criação terá ocorrido há mais ou menos 68 anos.

A casa Caiado Ferrão também tem algumas amoreiras nas suas propriedades, como por exemplo a da fotografia anterior, no Barreiro. Segundo o meu avô, Adelino Pinheiro, os Caiado também criavam bicho da seda. Existem várias amoreiras plantadas ao longo do ribeiro das Olgas.

Estas amoreiras próximas da casa Caiado são de grandes dimensões o que mostra a antiguidade da sua plantação. O meu avô chegou a referir o local onde se fazia a produção intensiva do bicho da seda mas perdi essa memória. Esta amoreira ao lado do caminho do "Barro" tem um tronco imponente. Será que alguém ainda se lembra do local onde os Caiado produziam o bicho da seda? Será que havia outras famílias a criar bichos da seda?

Amoreira situada em frente ao solar dos Caiado ao lado do caminho.



AMOREIRAS


Nome Científico: Morus celsa alba e Morus celsa nigra / Família Moráceas
Origem: A amoreira tipo alba é originária da China. A tipo nigra é de origem persa.
Partes usadas: Folhas e frutos.

Características e Cultivo: Árvore que atinge de 2,00 (alba) a 10,00 (nigra) metros, tronco verrugoso, folhas ovaladas, lisas, verdes brilhantes, dão frutos d
oces, comestíveis, que amadurecem no verão. Dá-se bem em regiões com muito sol, e aguenta Invernos rigorosos.
Propriedades medicinais: Propriedades laxativas e expectorantes.
Laxante simples: comer os frutos lavados de manhã em jejum. Bom para inflamações de garganta e da boca. Fazer bochechos e gargarejos com o sumo fresco dos frutos.




Existem dois tipos de amoreiras: a chamada amoreira preta, como estas de Pereiros, com amoras vermelhas e pretas e as chamadas amoreiras brancas. (imagem do lado direito)
Amora-preta é por dentro vermelho-escura e negra por fora, ao contrário das amoras brancas que tem a cor mais rosada. A amoreira branca também servia para a criação do bicho da seda, tem as folhas mais macias e, durante o século XIX, substituiu com vantagem a amoreira preta. Apenas conheci uma amoreira branca em Pereiros, no quintal do meu tio João Baptista Pinheiro, era de pequenas dimensões, as amoras eram brancas rosadas, muito doces e mais comestíveis do que as pretas. As folhas eram realmente muito parecidas com as da imagem. Chamavam-lhe amoreira da Índia. Esta amoreira já secou há alguns anos. Será que era um exemplar desta espécie?

Amoreira preta - frutos

Ao consultar alguma bibliografia sobre a História da seda em Trás-os-Montes, como por exemplo, o Professor Fernando de Sousa da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, no seu trabalho, A Indústria das Sedas em Trás-os-Montes (1790-1820) e o Abade de Baçal nas suas Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança, ambos dão os finais do século XIX, tendência já verificada a partir de 1820, como o declínio e quase abandono da produção de seda em Trás-os-Montes. Os Pereiros aguentaram-se até à década de 40 do século XX!

A produção de fio de seda era um processo complexo, por isso, não era feito localmente. Os produtores produziam apenas os casulos que depois vendiam. Contudo, todo o processo, desde a produção de casulos, fiação e fabrico de panos era feito em Trás-os-Montes.


As amoreiras tiveram um papel importante na economia de Pereiros durante muitos anos. Podem as suas amoras não ser muito agradáveis ao paladar mas são um símbolo de uma época, não vamos transformar todos os seus troncos em lenha! Tem havido em Trás-os-montes um esforço de preservação desta memória.
Dos quatro maiores focos de produção dessa época - o Real Filatório de Chacim, Estação de Sericultura de Mirandela, as fábricas de Bragança e os Viveiros e Fábricas de Freixo de Espada à Cinta, todos têm tentado manter esta tradição.
Em Chacim, foi feito um levantamento arqueológico e preservado o edifício do Real Filatório; em Mirandela manteve-se a memória na toponímica de uma avenida onde foram plantadas amoreiras; (dão imenso trabalho todos os anos na poda e na limpeza da avenida) Em Bragança, através do seu Centro de Ciência Viva, mantém o espaço da Casa da Seda, num antigo moinho de tingimento da seda onde guarda a memória de todo o ciclo da seda; Em Freixo de Espada à Cinta mantém-se o ciclo completo, ainda se produzem, de forma artesanal, tecidos de seda.

Em Pereiros, o objectivo final era este: casulos de seda.

VAMOS CONSERVAR AS NOSSAS AMOREIRAS