BEM – VINDO
O objectivo deste blog é duplo, dar a conhecer Pereiros de Ansiães, a sua história, a sua paisagem, o seu património e as suas tradições; é também uma forma de fazer aquilo que eu gosto, de partilhar emoções e memórias.

sábado, 17 de julho de 2010

Festa em honra de Nª Sª de Fátima - 2010


Nem todas as tradições em Pereiros têm de ser centenárias. A festa em honra de Nossa Senhora de Fátima é relativamente recente. Criada durante a década de 70, respondeu à vontade da aldeia realizar uma festa de Verão como acontecia com a maioria das paróquias vizinhas. Esta vontade vai de encontro a duas realidades distintas: O Verão é uma época de férias, uma oportunidade para aqueles que estão fora se poderem juntar à família, com a aldeia cada vez mais despovoada os que vivem fora ultrapassam, de longe, aqueles que aqui residem. A outra vontade era juntar o sagrado ao profano, realizar uma festa numa época mais quente, mais adequada a um arraial de Verão. A escolha de Nossa Senhora de Fátima é óbvia pela devoção que as pessoas lhe dedicam e ao facto de na igreja paroquial, num dos altares colaterais, a sua imagem ocupar um lugar de destaque.
A festa ficou assim marcada para o segundo fim-de-semana de Julho. Tem-se realizado desde então de forma ininterrupta.


Do ponto de vista religioso, a festa começou com uma homenagem ao padroeiro Santo Amaro - A bênção do painel de azulejos recentemente colocado na janela do corpo da igreja voltada a Norte. Este espaço foi fechado no século XIX para dar lugar ao altar lateral do Sagrado Coração de Jesus. Uma janela fechada com barro grosseiro que se encontrava em estado de degradação transformou-se numa bonita e imponente moldura para um painel de azulejos. Quando no início dos anos 90 se iniciou o restauro do interior da igreja, sugeri à comissão fabriqueira da época o aproveitamento do espaço com um painel de azulejos em azul e branco. Como o dinheiro não abundava e o restauro era prioritário tal nunca veio a ser posto em prática. Ainda bem.

O painel de azulejos foi oferecido e pintado por Amparo Cabral. Devota de Santo Amaro, deixa-nos aqui um contributo de fino recorte artístico pela sua expressividade, equilíbrio de formas e cores, perfeitamente enquadrado no espaço envolvente. Santo Amaro, no seu hábito beneditino com o báculo de bispo da igreja, transformou-se no protector do exterior da igreja.

É durante as festas que se consegue esta imagem única, a igreja enche-se, faz lembrar as grandes celebrações de há trinta ou quarenta anos atrás. Uma igreja imponente ganha assim vida, aproxima-se do grande objectivo para o qual foi construída no século XVIII, acolher todas as pessoas da paróquia.


A procissão é uma tradição secular que representa a devoção das pessoas; é também uma forma de ostentação e propaganda da fé católica. Antigamente, os andores e os estandartes saiam à rua na celebração do Corpo de Deus, mesmo as imagens maiores eram transportadas na volta solene à aldeia engalanada com arcos festivos, passadeiras de flores e colchas nas janelas.




Andor de Nossa Senhora de Fátima


Andor de Santo Amaro

(questionei a sra. Helena porque é que punham um barco no andor de S. Amaro. Disse-me que desconhecia. Contudo, conhecia muito bem qual o principal milagre atribuído ao padroeiro, caminhar sobre as águas para salvar outro discípulo de S. Bento, de morrer afogado. Apenas não se lembrava do nome. O nome do monge salvo por S. Amaro é S. Plácido mas isso fica para outra ocasião.)


Andor de S. José




A forma de adornar os andores também se alterou nos últimos anos. As fitas e tecidos coloridos foram substituídos por flores o que lhe trouxe um ar mais singelo, simples e natural.




A torre da igreja iluminada marca os dias festivos. Ela há-de ser sempre o símbolo maior de Pereiros, aquela que marca o espaço e o tempo por onde todos passamos ou havemos de passar.

terça-feira, 1 de junho de 2010

MAIO - Fim de tarde



"Quem não tem cão caça com gato" um ditado popular antigo que faz todo o sentido. Como o tempo é escasso fica-se apenas com os fins de tarde do mês de Maio. Mas que fins de tarde! Uns fragmentos aqui e ali, pequenos percursos sem nada definido. Cores quentes, calor, uma brisa ligeira que nos traz os cheiros do campo e uma luz fantástica que ilumina toda a paisagem de forma mais intensa.


Não é preciso ir muito longe, basta uma pequena volta pelos arredores de Pereiros. É só sair de casa!




Atravessando a aldeia, no caminho da Eira, uma autêntica carpete de flores e uma vista soberba sobre o vale da Veiga e os Carvalhais.






Contornando o caminho, a cerca do Barreiro com algumas das suas plantas exóticas muito antigas. O mau estado geral é confrangedor. Confrangedor também é o silêncio, atravessa-se a aldeia e praticamente não se vê ninguém, nota-se a falta das pessoas.


Outra perspectiva, outro pequeno passeio, contornando Pereiros pelos fundos, pela Quintã o objectivo é o Santo do meu avô. (claro que o Santo é dos meus pais mas, para mim há-de ser sempre o Santo do meu avô Adelino.)



Como sempre vou dar a minha volta ao Santo, o sobreiro grande do meu avô transporta-me até à minha infância, há poucos sítios no mundo onde me sinta melhor!



Coisas de beira de estrada, é só olhar. Começa no planalto, no Alto do Termo, aqui ainda se cultivam alguns cereais, coisa rara nos tempos que correm, depois é sempre a descer até à aldeia.





As maias fazem jus ao nome, deixam um colorido intenso que combina bem com as grandes formações graníticas típicas de Pereiros.







Outro pequeno percurso nesta sequência de fotografias em sentido contrário. Começa na estrada para Freixiel e vai apenas até ao Vaipri. Um dia destes vou descer até ao rio Tua. Abreiro espreita ao longe.



A Mata ao longe, imponente, é um desafio a fazer pela estrada de terra batida para os Folgares. Qual será a vista do alto da Pena?

Entre Abril e Maio estes percursos mudam de tonalidade e de cheiro. Os dias estão muito mais quentes, o fim de tarde torna-se ameno e suave. A ponte lá ao fundo é sempre uma vista que se impõe.




Os sobreiros, se a natureza lhes trouxer um bom ano de chuva, como este ano e se o homem pela incúria ou maldade não contribuir para a desgraça que são os incêndios, se lhes derem uma oportunidade, eles vingam. Há vários anos que não estavam tão bonitos como este ano, mesmo aqueles que lutam pela sobrevivência rejuvenesceram.


segunda-feira, 17 de maio de 2010

PRIMAVERA




Neste ano de 2010 a Primavera tem sido mais chuvosa e húmida, por isso, a natureza recompensou-nos de forma mais generosa do que o habitual. Por entre dias que mais parecem de Inverno um tapete de ervas e flores cobriu todos os campos de Pereiros. As árvores, os arbustos, a erva e as flores brotaram mais tarde mas permaneceram mais tempo. Uma paleta de cores variadas e brilhantes emergiu um pouco por todo o lado, os verdes são mais fortes e intensos, é a natureza ao vivo e a cores em toda a sua plenitude. Por isso é que vale a pena, mesmos entre algumas chuvadas, olhar mais para os pormenores. A Primavera ainda não acabou!

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Entre dois pelourinhos e dois concelhos

Pereiros é uma aldeia que ao longo da sua história pertenceu a dois concelhos: Freixiel e Carrazeda de Ansiães. Desde o início da nacionalidade até 1836 pertenceu ao concelho de Freixiel e integrou com esta vila a comenda da Ordem dos Hospitalários ou de Malta. Com a reforma administrativa liberal o concelho de Freixiel foi extinto e Pereiros passou para o concelho de Carrazeda de Ansiães.
Pereiros nunca foi município, por isso, não pode ter um Pelourinho mas tem um contributo único para a identificação do antigo concelho de Freixiel: os símbolos e os estandartes da comenda da Ordem dos Hospitalários ou de Malta na capela mor da sua Igreja Matriz.


Pelourinho era uma coluna de pedra colocada em local público, de cidade ou vila e na qual os municípios exerciam a sua justiça. Era, assim, o símbolo da jurisdição e da justiça de um concelho e da sua autonomia municipal. Também tinham direito de Pelourinho os grandes donatários, os bispos, os cabidos e os mosteiros.Em Portugal os Pelourinhos ou picotas, na sua designação mais antiga e popular, localizavam-se sempre no interior dos centros urbanos, normalmente em frente do edifício da câmara, isto é, no centro da vida comunal dos vizinhos.Desde que a partir dos finais do século XII foi permitido aos concelhos erigir os seus Pelourinhos estes foram construídos a expensas suas. Por isso, não obedeceram a um critério uniforme, dependeram da habilidade dos canteiros e do orçamento disponível. Assim, em lugar dos ganchos de ferro, muitos tinham no topo uma pequena casa em forma de guarita, feita de grades de ferro e muito semelhante a uma gaiola, onde os delinquentes eram expostos à vergonha e ao escárnio público. Nos Pelourinhos que não eram deste tipo os criminosos eram amarrados à coluna ou suspensos por baixo dos braços às argolas, ficando alguns palmos acima do solo. Aí eram açoitados ou mutilados, de harmonia com a gravidade do delito e os costumes da época.
O Pelourinho era formado por quatro partes, debaixo para cima:
Plataforma
- com ou sem degraus de acesso, onde se exibiam as cenas penais;
Base - no meio da plataforma onde emergia a coluna;
Coluna - com os seus três elementos constituintes - base, fuste e capitel;
Remate
- peça decorativa, derivada das primitivas gaiolas onde eram expostos os réus, ou um elemento arquitectónico usado como remate.Os Pelourinhos portugueses podem ser românicos, góticos (manuelinos) renascentistas ou barrocos e são, sem dúvida alguma, elementos arquitectónicos de grande valor histórico, artístico e simbólico. (Baseado no Dicionário de História de Portugal)

Pelourinho de Freixiel - Altura de 6,42 metros

O primeiro foral de Freixiel datará de 1112, tendo sido outorgado por D. Sancho Fernandes, prior da Ordem do Hospital, a cujo senhorio pertencia então a localidade. Teve foral novo de D.Manuel, em 1515. O concelho foi extinto em 1836, e integrado em Vila Flor, do qual é actual freguesia. Conserva um Pelourinho, certamente erguido na sequência do foral manuelino, e situado num largo da povoação.
O Pelourinho assenta numa plataforma de quatro degraus quadrangulares de aresta, o térreo parcialmente embebido no terreno, com desnível muito acentuado. O degrau superior serve de base à coluna. Esta tem secção quadrada, que se torna oitavada através do chanframento das arestas a curta distância do arranque, fazendo-se a transição através de diminutas molduras cantonais duplas. O fuste é composto por dois troços unidos por anel rebordante octogonal, sendo o primeiro troço, com cerca de um terço da altura total, de secção ligeiramente superior. No topo destacam-se novamente quatro pequenas saliências cantonais. O capitel é quadrangular, antecedido por duas molduras crescentes. Possui arestas ligeiramente chanfradas, e faces côncavas, ornadas com florões. O remate é constituído por um bloco com a mesma secção do capitel, que parece prolongar. Nas faces ostenta decoração heráldica, quase inteiramente ilegível, à excepção de um escudo nacional apontado, com bordadura de castelos, compondo o tipo mais habitual no reinado de D. Manuel. A peça terminal é uma pirâmide de secção quadrada, alongada, com moldura quadrangular intermédia e coroada por pequena pinha.
Trata-se de um Pelourinho manuelino bastante tradicional, em cujo remate terão sido talvez destruídos os restantes elementos heráldicos, que poderiam incluir uma esfera armilar, e ainda simbólica concelhia. Sílvia Leite (IPPAR)

Nesta imagem de pormenor pode observar-se perfeitamente o seu capitel quadrangular ornado na base por uma cinta de florões, decoração renascentista muito utilizada na arte manuelina nacional. O único elemento heráldico visível é o escudo nacional.

Freixiel tem também uma forca: trata-se deu um exemplar único no património transmontano. Era aqui que se punia, com a pena de morte por enforcamento, os crimes mais graves. Após a execução, o cadáver do condenado era exposto na forca, pendurado pelo pescoço.
É constituída por dois pilares de blocos de granito aparelhados com quase três metros de altura rematados por pirâmides. Entre os dois pilares de granito era colocado um barrote de madeira que encaixava na base das duas pirâmides do topo.


Pelourinho de Carrazeda de Ansiães

A partir de 1734 foi feita a mudança da sede de concelho da vila de Ansiães para Carrazeda de Ansiães. Os habitantes de Ansiães opuseram-se a esta perda de importância e revoltaram-se o que levou à destruição do velho Pelourinho de Ansiães e à construção deste em Carrazeda de Ansiães. Enquanto a vila de Ansiães entrava em decadência acentuada, acabando por ser abandonada em meados do século XIX, a nova vila de Carrazeda de Ansiães prosperava rapidamente.Da antiga vila de Ansiães restou o imponente castelo que foi tão importante para a defesa do Douro e a igreja românica, exemplar imprescindível para o estudo do singular românico rural português.
Em Carrazeda de Ansiães são edificadas as instituições essenciais para qualquer concelho: o Pelourinho e a Casa da Câmara ou Paços do Concelho que ostenta a data de 1736-37. A nova sede do concelho viria a desenvolver-se à volta do núcleo da Igreja Matriz que data de 1790. Todo o centro patrimonial de Carrazeda é assim tardio, do século XVIII.
A fonte que faz parte do arranjo da praça e que se encontra à frente do Pelourinho é datada de 1926 ou seja do século XX.


O Pelourinho do século XVIII, assenta numa base formada por três degraus sendo o primeiro semicircular, o segundo quadrangular e o terceiro circular. Formam, em planta, uma flor de quatro pétalas. O fuste da coluna é octogonal sem decoração. O capitel é também octogonal com um secção maior que a do fuste. Este apresenta-se decorado com as armas de D. João V. No remate uma pirâmide cónica truncada.