BEM – VINDO
O objectivo deste blog é duplo, dar a conhecer Pereiros de Ansiães, a sua história, a sua paisagem, o seu património e as suas tradições; é também uma forma de fazer aquilo que eu gosto, de partilhar emoções e memórias.

domingo, 21 de fevereiro de 2021

Inverno Natural - Vale do Tua

Animado pela notícia de que, no inicio da semana, a cheia tinha subido os pontões da ribeira, aproveitei este inverno chuvoso para seguir a água! O ribeiro das lajes, a ribeira e o rio Tua. 
Um inverno assim, lembra a minha infância, quando a invernada impedia a gente de Pereiros de atravessar a ribeira para apanhar a azeitona na Serra Tinta. Essas eram as invernadas de dezembro e janeiro. Agora estamos quase em meados de fevereiro. Pelas marcas deixadas pela água, tanto na ribeira como no rio, a cheia ainda foi grande! Em invernos como este o Rio Tua, de forma altiva e orgulhosa ignora a barragem que o prende, amesquinha e envergonha. Corre de forma violenta, selvagem.
Com muita ou pouca água, descer até ao rio, é uma viagem a um "reino maravilhoso" que faz parte da minha vida.





























sábado, 30 de maio de 2020

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

Afinal corre...!

Antes do final de Novembro, com a desculpa dos cogumelos, desci até ao rio Tua. Apesar de alguma chuva os ribeiros não corriam; a ribeira, incluindo os poços por baixo da ponte  da Cabreira, estavam completamente secos. Mas, para surpresa minha, o Rio Tua corria bem! Quando vi subir a albufeira da barragem de Foz Tua pensei que nunca mais o ia ver correr. Para meu contentamento, afinal corre!
Como adivinhar o que viria a seguir!?









quinta-feira, 25 de abril de 2019

Vale de Côvo


Passei  por aqui em plena Primavera. Vim à procura de distância e de tempo. Máquina fotográfica na mão, à espera do momento em que pudesse sentir-me parte do próprio caminho. Quando conseguimos isso já vale a pena a caminhada. Tinha feito este longo percurso pelo planalto, contornando o alto do Termo, entre Pereiros, Zedes e Folgares num dia muito mais agreste, em pleno Outono, na caça às perdizes com o meu tio. Nesse dia distante, tínhamos ido bater ao alto dos Folgares e, dali, tive o privilégio de ver uma das paisagens mais soberbas que ficou gravada para sempre ao longo da minha vida.









Vale de Côvo é uma paisagem mística, de fim do mundo, uma atmosfera primordial, intacta, solene. Depois do enorme planalto dividido entre Carrazeda e Vila Flor, de forma abrupta, caímos no precipício guardado por gigantes ciclópicos. Horizontes desmesurados até onde a vista alcança, a serra dos Passos, Bornes e o Alvão. Manchas coloridas de giestas, torgas e carquejas, o vale do Tua em toda a sua extensão até se fundir no azul do céu. O percurso atravessa passagens entre enormes maciços de granito que se agigantam pendurados no cume ou se agarram, firmemente, nas profundas gargantas que correm escancaradas em direção a Pereiros.  










Mas… para mim, Vale de Côvo tem outro significado, uma memória longínqua e assustadora. Vale de Côvo era o caminho das trovoadas que atormentavam o mês de Maio e Junho até aos Santos Populares. Apesar do medo e do respeito pelas trovoadas despertavam-me, na mesma medida, uma enorme curiosidade. A esta natureza de primavera, espelhada num céu azul cristalino faltam os enormes castelos de nuvens, presságio de tempestade.








Na minha infância, quando olhava Vale de Côvo não o via nesta perspetiva do planalto mas do fundo do vale, de baixo para cima, de forma longínqua e inacessível. Lá longe, pendurado no cume, um enorme gigante, ameaçador, vigilante que podia atirar trovões, raios e coriscos de forma perigosa e inesperada. Vale de Côvo tinha um carácter quase sagrado, de destino inevitável, apenas as preces a Santa Bárbara o podiam aplacar.
Nesses dias, o meu avô dizia, está um calor de trovoada. Quando no fim do mês de Maio, por volta das três da tarde, cresciam grandes castelos de nuvens, todos se preparavam. 
Vem aí a trovoada! Vem de Vale de Côvo!




Escolho uma sombra, sento-me, encosto-me para trás, descanso um pouco e deixo o tempo passar...
Recortadas sobre o céu azul, nuvens arredondadas crescem a pique, imponentes, brancas no topo como algodão em rama mas cinzentas e avermelhadas na base. Perfilam-se em poucos minutos. O primeiro raio rasga a crista de Vale de Côvo, o trovão estoura e ecoa em ondas sucessivas como se o gigante anunciasse o fim do mundo.
A partir daqui é uma corrida alucinante! Faíscas e trovões descem o vale, rasgam o céu de forma impiedosa entre os enormes penhascos. São acompanhados por uma chuva grossa e granizo que se vê ao longe, em cordas brancas, descendo das entranhas das nuvens. Ainda com sol, o ar vibra com os relâmpagos e o chão estremece com os trovões. A ventania aumenta, entre o medo e a curiosidade esgueiro-me para a janela da varanda, espreito pendurado, num instante acaba de galgar o Gricho e descer os Carvalhais. As faíscas marcam o caminho, sustenho a respiração, os segundos são cada vez menos, ouve-se o ribombar do trovão cada vez mais perto. 
De repente, fica tudo escuro. Agora vem desembestada para cima de nós! 
Caem as primeiras faíscas diretas, a luz ofuscante percorre todos os cantos da casa, ao mesmo tempo o estampido agudo, como um grito, o trovão! Depois, prolonga-se em estrondos graves e ensurdecedores. Quase caio da janela! 
O gigante de Vale de Côvo soltou o diabo e todos os mafarricos, o inferno na terra. 

Oiço a minha mãe e a minha tia rezar. 


Santa Bárbara bendita,
  Que no céu está escrita.
    Com papel e água benta,
             Deus nos livre desta tormenta!
                                             



Magnificat minha alma,
engrandece o Senhor,
Jesus meu salvador!



Tapo os ouvidos e encosto-me a um canto.
Instala-se o caos, a casa estremece, o telhado parece que vem abaixo, ouve-se o ricochete nas telhas, as janelas são batidas de forma violenta, é granizo de certeza! O estrondo é tão profundo que percorre e agita todo o corpo. Sinto-me como se estivesse no fundo de um poço! O tempo pára e arrasta-se, os minutos parecem horas. 
Santa Bárbara tenha misericórdia de nós!  Magnificat minha alma... engrandece o Senhor... e tudo se repete vezes sem conta! 
Junta-se o ruído rouco de torrentes de chuva que descem as ruas e se juntam num ribeiro de águas bravas. A trovoada corre para o rio Tua como se o gigante de Vale de Côvo apontasse todo o percurso de sofrimento a cumprir. É tempo de saltar para a varanda ver a enxurrada. A torre da igreja e o galinho, recortados sobre um céu vermelho de fogo, ainda estão lá. Alguns mafarricos malvados ficam para trás, sozinhos e vingativos, ainda não acabou, uma faísca caiu bem perto.
Cuidado! Estou a desafiar o gigante! 
Arrepiado, lembro-me das histórias do meu avô sobre faíscas que matavam o gado dos pastores; descascavam, de cima abaixo, os pinheiros mais altos ou entravam pelas janelas abertas das casas. A trovoada invade todo o vale do Tua. Vai direita a Mirandela e a Bornes.
Será que o granizo destruiu tudo?



Agora ao fim da tarde, estou aqui, no colo do gigante! Desci apenas uma parte do vale e o resultado é esmagador. Tenho de subir até ao planalto. 
A persistência da gente laboriosa dos Folgares fez caminhos, plantou amendoeiras e árvores de fruto nesta paisagem pré-humana de formas bizarras, estranhas e equilíbrios impossíveis. 







Enquanto aproveito os caminhos bordejados de torgas brancas, rosmaninho e amendoeiras plantadas em sítios improváveis, um casal de perdizes levanta de forma suave e afunda-se com o granito. Têm o ninho por perto. 
Toda a natureza faz sentido. 
Reparo em raros narcisos amarelos, agarrados ao musgo nos recantos das grandes fragas, protegidos do frio, voltados a nascente. Nunca tinha visto tantos juntos. Um olhar mais atento encontra outras plantas que florescem de forma abundante um pouco por todo o lado.
  




O diabo e os mafarricos não andam por aqui mas encontrei o tempo e o momento em que me senti parte do próprio caminho. 
Atualmente, as trovoadas de Vale de Côvo não têm a frequência e a força de outros tempos. Talvez as linhas elétricas de alta tensão tenham alterado toda a sua dinâmica. Contudo, não desapareceram, quando estão reunidas todas as condições, o gigante acorda e semeia a destruição no vale do Tua. Se estiver presente numa dessas ocasiões,  vou subir o vale... desafiar o gigante!
Enquanto faço a subida íngreme, a tarde vai terminando... a brisa fresca do planalto a mandar-me para casa! 





Como disse Miguel Torga, um nunca acabar de terra grossa, fragosa, bravia… um oceano megalítico que se afunda nuns abismos de angústia, não se sabe por que telúrica contrição! 

Só um transmontano como ele saberia definir de forma tão umbilical este espaço.