BEM – VINDO
O objectivo deste blog é duplo, dar a conhecer Pereiros de Ansiães, a sua história, a sua paisagem, o seu património e as suas tradições; é também uma forma de fazer aquilo que eu gosto, de partilhar emoções e memórias.
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sábado, 3 de fevereiro de 2018

A MUDANÇA?

Ainda que fique alguma nostalgia do Rio Tua selvagem, estão agora reunidas as condições para, a partir do mês de Março, se iniciar aquilo que poderá ser uma mudança qualitativa no Vale do Tua. A concessão à Douro Azul (http://www.douroazul.com/Default.aspx) é garantia de qualidade e turismo no Vale do Tua. (http://sicnoticias.sapo.pt/pais/2017-04-05-Comboio-regressa-a-Linha-do-Tua-em-junho) Ainda que com atraso, o arranque está para breve. O Vale do Tua irá integrar o já bem conhecido turismo fluvial do Douro em crescimento rápido nos últimos anos. A Mirandela chegaram a máquina do comboio e as carruagens que irão fazer o trajeto pela linha férrea até à estação da Brunheda onde já se encontra o barco atracado ao cais, pronto para a ligação fluvial até ao Tua.
Ao Parque Natural Regional do Vale do Tua (http://parque.valetua.pt/) caberá fazer a promoção de uma região com grande potencial paisagístico mas também o seu património, cultura e tradições tão  enfraquecidas pelo envelhecimento das suas populações.
Mário Ferreira promete cem mil pessoas por ano. Vamos ver.









terça-feira, 25 de julho de 2017

Rio Tua - albufeira

O barco já chegou! agora, só falta o comboio.
Os helicópteros são bonitos, podem até proporcionar grandes fotos nesta paisagem única mas, foram convidados para um evento que não fazia falta nenhuma: o grande incêndio de Alijó.







terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O MOINHO DOS ALVARIANOS


O moinho faz parte de um percurso de final de Dezembro, daqueles dias de invernada em que choveu muito durante a noite mas o dia, apesar das ameaças, vai dando alguma trégua. Enquanto na aldeia toda a gente pensa na campanha da azeitona, depois de quase um mês a chover, fui ver as oliveiras. Apenas ver.  Está um dia macio, quase temperado para a época do ano. Há água por todo o lado. É uma boa ocasião para tomar o caminho da Regadia e ver o Ribeiro.


Este ribeiro recolhe a água de vários outros que descem dos Grichos, dos Carvalhais e dos Termos. Passa por baixo da ponte das Olgas, descansa até aos Moinhos e, depois, precipita-se numa correria desenfreada pela Regadia abaixo até aos Alvarianos. Vai mudando de nome conforme as propriedades que o rodeiam ou dos antigos moinhos que dele dependiam.
Não dá como não o encontrar! Faz-se anunciar bem cedo quando nos aproximamos deste vale profundo e quase incessível. Ouve-se ao longe! Numa trovoada de água e espuma, atira-se ao granito, salta de fraga em fraga, desaparece no meio de grandes penedos para reaparecer depois, escorregando ao longo de  lages maciças e quedas de água. 


Não admira que tenham construído moinhos ao longo do seu curso. Um cheiro intenso a terra molhada mostra que, tudo aquilo que a natureza dá, também acaba por levar.

Correndo por entre escarpas de um
Olha em frente na direcção da serra, ainda há muito para correr, mais selvagem, mais granito, mais vinhas em socalcos e olivais que lhe apertam a margem, ainda faltam os Alvarianos, o moinho, a ribeira e o rio Tua e o Douro, o mar.

Sentado aqui na beira do caminho faz-me lembrar Miguel Torga e o Seu Reino Maravilhoso, vou apenas citar um bocadinho, quando descer ao rio vou ilustrar o seu texto.
"Léguas e léguas de chão raivoso, contorcido, queimado por um sol de fogo ou por um frio de neve. Serras sobrepostas a serras. Montanhas paralelas a montanhas. Nos intervalos, apertados entre os rios de água cristalina, cantantes, a matar a sede de tanta angústia. E de quando em quando, oásis da inquietação que fez tais rugas geológicas, um vale imenso, dum húmus puro, onde a vista descansa da agressão das penedias. Mas novamente o granito protesta. Norda para a força medular de tudo. E são outra vez serras, até perder de vista." 
As serras a perder de vista são as Cortiçadas, a Serra Tinta, o Zambulhal de Abreiro ou a Serra dos Passos. Então... e o nosso moinho? Está lá baixo, escondido entre sobreiros e carvalhos, encostado em cima dos fragoredos do ribeiro. Entretanto o ribeiro calou-se neste espaço
aberto, corre rápido pelos lameiros mas ... silencioso, integrou-se com respeito na paisagem.


Ele aí está! Mais granito, mais fragas, mais cascatas, outra corrida, outra viagem! fizeram-no aqui, à espera do ribeiro, não o invadiu, encostou-se apenas a uma distância segura no seu leito. Atrás dele um maciço imponente, a Pena.


Simples, rústico, telúrico, granito como tudo o resto, nem uma única abertura para entrar a luz, apenas uma porta e aquela boca escancarada para descarregar a água.                                       
 







A mó está lá, intacta, escorada em cima de grandes pedras de cantaria. No chão os restos da antiga roda de madeira que fazia girar a mó. 
Para compreender o engenho e a argúcia de quem construiu este moinho é preciso subir até ao telhado, visto de cima parece que se agiganta, já não se encostou à margem, pendurou-se em cima do ribeiro, dominou-o. 



Na ombreira da porta está gravada na pedra uma inscrição, se as donas não souberam dizer-me o seu significado eu também não vou arriscar!
  
Ainda há um ditado popular que diz que não se deve começar uma casa pelo telhado! O moinho dos Alvarianos ou do Ribeiro das Lajes começou a ser "construído" pelo telhado na cabeça de quem o imaginou. O seu segredo está no canal da água, na forma como foi aproveitada a gravidade. A água do ribeiro foi desviada a montante e, usando um declive acentuado, canalizada a alta velocidade para dentro do moinho. Pelo telhado até ao chão!


Por fora o canal transforma-se num tubo redondo, finamente esculpido em grandes lages de granito e desaparece no interior do moinho. No interior o canal de pedra desce pela parede atravessa o moinho e leva a água directamente para a roda. Um trabalho de mestre. o moinho tem algum feno e pedaços de madeira, o telhado mantém-se num equilíbrio difícil. merecia ser completamente limpo e a água a circular. Quem, há tantos anos, o imaginou, construiu e nele trabalhou, mereciam essa consideração. Se for necessário eu dou uma ajuda.

Um último
olhar para o ribeiro, os Alvarianos, as oliveiras e o moinho ficaram para trás. Este ano, da maneira que está o tempo, muita azeitona vai ficar na terra. Apesar de "depois do Natal o salto de um pardal" os dias ainda são curtos.


domingo, 6 de fevereiro de 2011

MOINHO DOS ALVARIANOS - VIDEO


O moinho dos Alvarianos pertenceu a José Moreira e Maria dos Ramos.Trabalhou até há cerca de 70 anos.  A sua actual proprietária, Eulália Moreira, ainda se recorda de, na sua infância, ir para lá  moer cereais. É um moinho curioso. Quase escondido no fundo do vale do ribeiro dos Alvarianos ou das Lajes, é uma mistura de simplicidade e técnica de construção. Num aparelho de granito rústico, adapta-se ao terreno, um único corpo ocupa quatro espaços bem definidos e duas calçadas. Quando nos aproximamos começamos a compreender porquê. Visto de baixo, ao nível do ribeiro, parece muito alto, a saída de descarga  está bem à vista  mas, por onde entra a água? A única solução é subir, subir as calçadas até ao telhado. Lá em cima tudo se revela, o telhado está à altura do chão, depois vê-se o canal de transporte da água e, por fim, aquilo que o distingue: o canal da água entra pelo topo do telhado, através de grandes pedras de granito finamente trabalhadas em forma circular! Simples, muito bem imaginado, capaz de aproveitar toda a força da gravidade. Que excelente trabalho de cantaria! Como seria interessante se a água pudesse, pelo menos, correr outra vez. O moinho é apenas um percurso de fim de Dezembro. Até já.

sábado, 17 de abril de 2010

PONTE DAS OLGAS

Neste "Abril de águas mil" o tempo está incerto, a meio desta tarde de Sábado o sol aquece bem mas é uma ameaça de tempestade. Entre os penhascos graníticos as cores da Primavera vão despontando aqui e ali. Quase à chegada o primeiro aguaceiro lembra-me que hoje posso ter de ficar em casa! Vamos ver. Por enquanto só chove nos Codeçais e de além do rio.
Como o tempo meteorológico está capaz de se vingar de percursos longos e o tempo do relógio não pára, vou fazer um passeio pequeno: Barreiro, Ponte das Olgas, Moínhos, Campo de Futebol e Pereiros outra vez. Quero ver o ribeiro num ano de muita chuva como este.
Saio de Pereiros pela Cortinha do Carvalho até ao Barreiro, subo até mesmo ao topo, uma perspectiva da aldeia que já não apreciava há muito tempo. Era aqui que uns dias antes do Carnaval se faziam os "casamentos". Os "casamentos" de Carnaval obrigavam a que houvesse duas equipas de rapazes casamenteiros, uma aqui no alto do Barreiro e outra bem no cimo da aldeia, no alto do Cabeço, mesmo em frente. De forma mais ou menos brejeira, ninguém (por casar) lhes escapava, solteiros, solteirões, solteiras, solteironas, viúvas e viúvos. Por um funil, gritavam-se uns versos, previamente feitos e mantidos em segredo, num diálogo constante entre os dois lados da aldeia, acompanhados de fogo de artifício para fazer a festa. Todo este ritual pagão realizava-se por volta da meia-noite.

O Barreiro e a sua cerca envolvente pertenceu em tempos à nobre e fidalga família Caiado Ferrão. Segundo o meu avô, Adelino Pinheiro, o velho Caiado Ferrão tinha assento nas Cortes em Lisboa e cumpria a sua obrigação vestido de fraque e cartola. Era ele que tinha o gosto pelas plantas exóticas que trazia para sua casa senhorial e respectiva cerca: eucaliptos, lilás, alecrim, oliveira de cheiro e estes cactos.

Do solar falarei mais tarde, o céu está carregado, é tempo de descer o Barreiro até à ponte.


Pelo caminho ainda dá para ver uma torga branca e perfumada, mais rara do que as roxas.

Basta descer a encosta de sobreiros e pinheiros para vermos a ponte atravessando o vale coberto de ervas floridas. Ao fundo a Mata imponente no seu gigantesco anfiteatro de granito.

No alto da Mata destaca-se uma formação granítica curiosa a que as pessoas dos Pereiros chamam a Pena ou a "Mulher Prenhada". A mata com os seus sobreiros centenários e os seus bosques de castanho pertencia também aos Caiado. Em tempos havia medronheiros. Como dizia o meu avô, o "Pedro velho" tinha um óculo e do alto do Barreiro vigiava o pastoreio nos seus domínios até ao alto da Mata. Se alguém ousasse entrar, sem a sua autorização, levava uma "coima", expressão que eu ainda ouvi, várias vezes, à "Amélia do Pedro" que ficou com o uso-fruto de todos os bens.

Da ponte pode observar-se toda a serra donde nascem os ribeiros que a justificaram, os Termos, os Grichos e os Carvalhais. Em anos de muita chuva como este ou durante grandes trovoadas o caudal do ribeiro é assinalável.

Esta ponte ligava a aldeia de Pereiros à sua sede de concelho - Freixiel. Por isso tinha, com certeza, importância política e administrativa. É construída por um fino aparelho de granito de boas dimensões o que lhe dá um aspecto sólido e robusto. Tem um corpo central quadrado bem marcado com um arco único de volta perfeita ou redondo. Deste corpo central prolonga-se para os dois lados, adaptando-se ao vale o que lhe confere uma forma de conjunto arqueada. Esta forma harmoniosa tem também uma função prática, facilita o escoamento das águas pluviais protegendo a ponte das intempéries. Na sua parte superior o caminho é revestido por um lajeado de granito largo que a protege das infiltrações de água.

A montante da ponte, no leito do ribeiro foi aplicado um lajeado de pedra que permite uma maior velocidade da água e evita que esta enfraqueça as fundações da ponte.



A ponte ligava também os domínios senhoriais dos Caiado Ferrão, fazia a ligação entre o Barreiro e as Olgas. A jusante do ribeiro, do lado de Freixiel, tem um aqueduto de escoamento de águas, de razoáveis dimensões, que faz a drenagem dos terrenos das Olgas a montante, por sinal bastante alagadiços. Do lado oposto, também a jusante do ribeiro, existe outra saída de água mas mais pequena.


Não tem qualquer elemento que permita fazer a sua datação precisa. Na minha modesta opinião a ponte das Olgas não é medieval e muito menos romana! O seu elegante arco de volta perfeita não justifica tudo! A ponte liga Pereiros e Freixiel mas também os domínios senhoriais dos Caiado Ferrão, o Barreiro e as Olgas. O aparelho de granito envelhece com o passar dos séculos, cria musgo o que não é o caso. Mesmo o lado virado a nascente, ou seja, ao temporal está em óptimo estado. A ponte tem funções agrícolas, serve para drenar águas das propriedades a montante, poderia estar ligada a investimentos agrícolas feitos nas Olgas, nomeadamente à plantação de vinhedos, a grande riqueza dos Caiado antes da Filoxera.
A plantação maciça de vinhedos em Portugal e, em especial em Trás - os -Montes e Alto Douro, ocorreu a partir de meados do século XVII, período áureo na produção de vinho apenas interrompido pela Filoxera no último quartel do século XIX. a Filoxera transformou-se na praga mais devastadora da viticultura mundial, alterando profundamente a distribuição geográfica da produção vinícola, duraria quase meio século. Muitos produtores de vinho conseguiram,mais tarde, refazer as suas vinhas, outros, como foi o caso dos Caiado, abandonaram esta cultura.
Se tivesse que arriscar uma datação para a ponte seria aqui a meio deste período, século XVIII até inícios do século XIX. Mandada construir ou patrocinada pela principal família senhorial de Pereiros.
O facto da ponte não ter qualquer datação não quer dizer que não possa ser feita através de outras fontes directas ou indirectas. Espero que toda a investigação que está a ser levada a cabo por Cristiano Morais de Freixiel sobre a Ordem dos Hospitalários e o antigo concelho de Freixiel possa trazer alguma luz sobre a ponte das Olgas.

O património de Pereiros não são apenas as pedras, são também as pessoas. Ainda tive tempo para dois dedos de conversa com o sr. Alexandre sobre o ribeiro, sobre os anos de chuva e de seca, sobre a vida...

Os burros estão em vias de extinção, dizem os órgão de comunicação social com alarido, nos Pereiros ainda há alguns bem à vista! (quantos haverá por esse país abaixo... em vias de extinção não estão com certeza.)

Um último olhar de conjunto e fiz-me ao caminho, o objectivo é o moinho.

Entre a ponte e o caminho que desce para os Moinhos são menos de 500 metros. o carreiro que lhe dá acesso através do lameiro nada existe, foi encoberto pelo monte e por ervas de um forte colorido amarelo. Mas, ele aí está! ou o que resta. As ruínas do moinho e o seu canal de água. Tenho a ideia de que a parede frontal ao ribeiro caiu há poucos anos, ainda me lembro dela direita coberta de trepadeiras.




Mesmo em frente ao moinho o ribeiro acalma, as águas ficam mais paradas, formam um poço; era aqui que as mulheres lavavam a roupa e a punham a corar ao sol. Do que mais me lembro era do formigueiro enorme dentro do moinho e das formigas grandes vermelhas.

Em vez de continuar o caminho decidi subir o ribeiro. Consegui apenas durante umas dezenas de metros, a vegetação e a água impediam que se progredisse mais. Subi a parede para ver o canal do moinho.



Este efeito das plantas aquáticas floridas parece um quadro da última fase impressionista de Monet, luz, cor e efeitos fugidios.

O canal levava a água por gravidade para o moinho de forma a haver força suficiente para fazer funcionar a roda de moer os cereais. Este canal é interessante pelas suas dimensões e pela sua elegância de linhas com três grandes aberturas que permitem a circulação. Estes moinhos de água eram bastante comuns nos ribeiros com algum caudal e no rio Tua com as sua típicas açudes.


Nos moinhos do Joaquim Moreira um autêntico jardim, um lilás enorme completamente florido num recanto junto ao tanque de água. Daqui a vista soberba para as Cortiçadas mesmo em frente.

Voltei para trás, para o Barreiro, os pinhais ainda nos fazem lembrar como era a parte alta dos Pereiros antes dos sucessivos incêndios.

Apanhei o caminho outra vez, o campo de futebol anda pouco utilizado, as balizas precisavam de uma pintura nova... deixei o sobreiro de guarda - redes e fui andando para casa está a escurecer e quase a chover.

No caminho da Comprada uma maia amarela em Abril. Coisas da natureza.

Olhei para trás, já começam a cair as primeiras pingas nas serra, a casa também não fica longe!


O sobreiro e a parede sempre ali estiveram a ver quem cai primeiro, os Pereiros são já ali.